O cão dos Baskervilles – Capítulo 9

Arthur Conan Doyle

O cão dos Baskervilles
Capítulo nono

Título original: The Hound of the Baskervilles
Publicado em The Strand Magazine, Londres, 1901-02.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Hound of the Baskervilles publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Capítulo nono: Segundo relatório do dr. Watson — Luz na charneca

“Baskerville Hall, 15 de outubro.

Caro Holmes,

Se me vi obrigado a deixá-lo sem grandes notícias nos primeiros dias da minha missão, tem de reconhecer que estou recuperando o tempo perdido, e que os acontecimentos se sucedem rapidamente. Acabei meu relatório com Barrymore à janela, e tenho aqui um calhamaço que, a não ser que me engane, muito o surpreenderá. Os fatos tornaram um rumo que eu não poderia ter previsto. De certo modo, tornaram-se mais claros nas últimas quarenta e oito horas, e, ao mesmo tempo, em outros pontos, ficaram mais complicados. Mas vou contar-lhe tudo, e você próprio julgará.

Antes do café, na manhã seguinte à minha aventura, desci o corredor e fui examinar o quarto onde Barrymore estivera na noite anterior. A janela a oeste, por onde ele tão atentamente espiara, tem uma peculiaridade, isto é, tem a mais próxima visão da charneca. Há urna abertura entre as árvores que permite que se olhe diretamente para a planície, ao passo que das outras janelas só se pode vislumbrá-la. Daí por que concluí que Barrymore estava à procura de alguém ou de alguma coisa no campo. A noite estava muito escura, de modo que eu mal podia imaginar que ele esperasse ver alguém. Tinha-me ocorrido que era possível que se tratasse de algum caso amoroso. Isso explicaria os seus movimentos furtivos e também a inquietação da mulher. Barrvmore é um homem vistoso, tipo atraente e muito capaz de roubar o coração de qualquer camponesa, de modo que a minha teoria parecia ter base. O abrir da porta, que ouvi depois que voltei para o meu quarto, podia significar que ele tivesse ido a algum encontro clandestino. Foi assim que raciocinei no dia seguinte e conto-lhe as razões das minhas suspeitas, embora os resultados tenham provado que eram infundadas.

Mas, seja qual for a verdadeira explicação dos movimentos de Barrymore, achei que a responsabilidade de guardar segredo era demais para mim. Tive urna conversa com o baronete no seu escritório, depois do café, e contei-lhe o que vira. Ele ficou menos surpreso do que eu esperava.

— Sabia que Barrymore andava de noite e pensava falar nisso disse ele. Por duas ou três vezes, ouvi os passos dele no corredor, indo e vindo mais ou menos à hora que diz.

— Então, talvez ele faça uma visita àquela determinada janela todas as noites disse-lhe.

— Talvez. Se assim for, poderemos segui-lo, para ver o que anda fazendo. Que faria o seu amigo Holmes, se estivesse aqui?

— Creio que faria exatamente o que o senhor está sugerindo respondi. Seguiria Barrymore, para ver o que há.

— Então, iremos juntos.

— Mas, com toda a certeza, ele nos ouvirá.

— Barrymore é bastante surdo, e, de qualquer maneira, temos de arriscar. Ficaremos sentados no meu quarto, hoje à noite, esperando que ele passe.

Sir Henry esfregou as mãos de prazer. Era evidente que considerava a aventura um alívio, na vida calma que levava na charneca.

O baronete tem se comunicado com o arquiteto que preparou as plantas e com um construtor de Londres, de modo que podemos esperar grandes mudanças aqui, para breve. Já vieram decoradores e tapeceiros de Plymouth; evidentemente, o nosso amigo tem ideias largas, e não pretende poupar esforços para restaurar a grandeza da família, Quando a casa estiver reformada e remobiliada, para torná-la completa ele só precisará de uma esposa. Cá entre nós, há sintomas claros de que isso não faltará, se a dama estiver de acordo, pois raras vezes tenho visto homem mais encantado com uma mulher do que Sir Henry com a nossa bela vizinha, a srta. Stapleton. Mas o curso do amor verdadeiro não é tão suave como, nestas circunstâncias, se poderia esperar. Hoje, por exemplo, a superfície foi agitada por urna onda inesperada, que causou perplexidade e aborrecimento ao nosso amigo.

Após a conversa sobre Barrymore, de que falei, Sir Henry pegou o chapéu e preparou-se para sair. Instintivamente, fiz o mesmo.

— Oh, o senhor vem? — perguntou-me ele, olhando-me de maneira curiosa.

— Depende de o senhor ir ou não à charneca respondi-lhe.

— Vou, sim.

— Pois bem, sabe quais são as instruções que recebi. Sinto intrometer-me, mas o senhor ouviu como Holmes insistiu para que eu não o deixasse sair só, principalmente quando fosse à charneca.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Sir Henry pôs-me a mão no ombro, com um sorriso cordial.

— Caro amigo, com toda a sua sabedoria, Holmes não previu certas coisas que aconteceram desde que cheguei aqui. Compreende o que quero dizer? Tenho certeza de que é o último homem do mundo que seria desmancha-prazeres. Preciso ir só.

Isso me deixou numa posição embaraçosa. Não sabia o que dizer ou fazer; antes de me decidir, ele já pegara a bengala e partira.

Mas, depois que resolvi o assunto, minha consciência me censurou amargamente por ter permitido que ele fugisse à minha proteção. Imaginei quais seriam os meus sentimentos, se tivesse que voltar para perto de você e confessar que acontecera alguma desgraça por causa do meu desrespeito às suas ordens. Garanto-lhe que o meu rosto ficou vermelho, só de pensar nisso. Achei que talvez ainda tivesse tempo de alcançá-lo, de modo que saí imediatamente, rumo a Merripit.

Andei pela estrada o mais depressa possível, sem ver sombra de Sir Henry, até chegar ao ponto onde o caminho da planície se bifurca. Ali, temendo ter tomado a direção errada, subi a uma colinazinha de onde se tem uma larga visão. Vi-o imediatamente. Estava na vereda da charneca, a uns quatrocentos metros, e a seu lado vi uma mulher que não podia deixar de ser a srta. Stapleton. Era evidente que já havia um entendimento entre eles e que tinham se encontrado por prévia combinação. Caminhavam lentamente, em conversa animada, e vi-a fazer pequenos e rápidos movimentos com as mãos, como se estivesse muito interessada no que dizia, enquanto ele ouvia atentamente, tendo uma ou duas vezes sacudido a cabeça, em sinal de profunda desaprovação. Fiquei no meio das rochas, observando-os, sem saber o que fazer. Aproximar-me e interromper a conversa íntima seria um abuso, mas, ao mesmo tempo, o meu dever era não perdê-lo de vista. Espionar um amigo era um papel odioso. Apesar de tudo, não via melhot- solução a não ser observá-lo dali e depois apaziguar a consciência, contando-lhe o que fizera. É verdade que, se algum perigo o ameaçasse, eu estava longe demais para socorrê-lo, mas tenho certeza de que você concordará em que a minha posição era muito delicada e que eu nada rúais podia fazer.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Nosso amigo e sua companheira tinham parado e estavam profundamente absortos na conversa, quando percebi que eu não era a única testemunha da entrevista. Uma mancha verde no ar chamou-me a atenção, e logo vi que era uma rede para pegar borboletas, que um homem segurava, movendo-se no terreno acidentado. Era Stapleton. Estas a muito mais perto dos dois do que eu e parecia dirigir-se a eles. Nesse momento. Sir Henry puxou de repente a srta. Stapleton para si. Tinha o braço em volta dela, mas pareceu-me que a jovem procurava fugir dele e desviar o rosto. Ele baixou a cabeça, mas a jovem ergueu unia das mãos, em sinal de protesto. No momento seguinte, vi-os separarem-se bruscamente e darem uma rápida reviravolta. Stapleton fora a causa da interrupção. Corria para os dois, com a absurda rede esvoaçando atrás dele. Gesticulava e quase dançava dc excitação na frente dos namorados. Não pude imaginar o que significava a cena, mas pareceu-me que Stapleton estava insultando Sir Henry, que dava explicações e estas se tornavam mais coléricas à medida que o outro se recusava a aceitá-las. A srta. Stapleton estava à parte, em orgulhoso silêncio. Finalmente, Stapleton virou se com um gesto peremptório para a jovem e esta, com um olhar irresoluto para Sir Henry, partiu na companhia do irmão. Os gestos encolerizados do naturalista indicavam que a jovem tinha igualmente incorrido no seu desagrado. O baronete ficou por um minuto a olhá-los e depois voltou por onde viera, de cabeça baixa, parecendo muito infeliz.

Eu não podia imaginar o que aquilo significava, mas estava profundamente envergonhado por ter presenciado uma cena tão íntima sem meu amigo saber. Desci a colina correndo e encontrei o baronete lá embaixo. Vi-o com o rosto vermelho de cólera e o cenho franzido, como se estivesse completamente perplexo quanto ao que devia fazer.

— Olá, Watson Dc onde caiu você? — perguntou. — Não vá dizer que andou atrás de mim, apesar de tudo!

Expliquei-lhe que me fora impossível ficar, que o seguira e presenciara a cena. Por um instante seus olhos brilharam, mas a minha franqueza desarmou-o. Finalmente, rompeu em riso.

— Nós esperávamos que o centro desta planície fosse lugar onde se pudesse ter intimidade — disse ele. —  Mas, com mil diabos, parece que toda a região presenciou a minha corte… e uma pobre corte, ainda por cima! Onde é que reservou o seu lugar?

— Eu estava naquele morro.

— Na fila de trás, bem? Mas o irmão estava bem na frente. Você o viu aproximar-se de nós?

— Sim, vi.

— Alguma vez lhe ocorreu que o irmão dela é doido?

— Realmente, nunca me ocorreu.

— De acordo. Também eu o achava normal, até hoje, mas pode acreditar quando digo que deveria estar metido numa camisa-de-força. O que se passa comigo, afinal de contas? Você está aqui há várias semanas, Watson. Diga-me com franqueza! Existe alguma coisa que impeça que eu seja um bom marido para a mulher que eu amar?

— Claro que não.

— Ele não pode objetar quanto à minha pessoa. O que tem contra mim? Nunca fiz mal a ninguém, neste mundo. E, no entanto, ele não permite nem mesmo que eu toque nos dedos da irmã.

— Disse isso?

— Isso e mais alguma coisa, Escute, Watson, conheço-a há poucos dias, mas desde o princípio vi que ela fora feita para mim, e ela. . . também parecia feliz na minha companhia, sou capaz de jurar. Há uma luz nos olhos daquela mulher que diz mais do que palavras. Mas o homem nunca nos deixa juntos, e foi somente hoje que, pela primeira vez, vi uma oportunidade de lhe falar a sós. Ela concordou alegremente, mas, quando nos encontramos, nau foi de amor que falou, nem deixou que eu falasse. Continuou a insistir em que este é um lugar perigoso para mim, que não seria feliz enquanto eu não fosse embora. Respondi que. desde que a conhecera, nau tinha a menor vontade de partir e que, se ela quisesse realmente que eu partisse, a única maneira de consegui-lo seria ir comigo. Com isso, pedi-a em casamento, mas, antes que ela pudesse me responder, surgiu o irmão, correndo e com cara de louco. Estava pálido de raiva, e seus olhos luziam. Que estava eu fazendo ali com a jovem? Como ousava lhe prestar homenagens que desagradavam a ela? Achava eu que, por ser baronete, podia fazer o que quisesse? E outras coisas. Se não se tratasse do irmão dela, teria sabido responder-lhe melhor. Declarei que não me envergonhava dos meus sentimentos para com sua irmã e que esperava que ela me desse a honra de me aceitar por marido. Isso não melhorou a situação, de modo que também perdi a cabeça e respondi mais bruscamente do que talvez devesse, considerando-se que ela estava presente. Tudo acabou com a partida dos dois, como você viu, e aqui estou, profundamente perplexo. Diga-me o que isso significa, Watson, que lhe ficarei eternamente grato.

Tentei explicar, mas confesso que também estava confuso. A fortuna do nosso amigo, o título, a idade, o caráter e a aparência, tudo isso fala a seu favor e nada sei contra ele, a não ser que se leve em conta a maldição que parece pesar sobre a família. Acho extraordinário que a sua corte seja rejeitada tão bruscamente sem que a jovem seja consultada, e também que ela aceite a situação sem protestos. Mas as nossas conjeturas cessaram com uma visita de Stapleton naquela tarde. Veio pedir desculpas por sua grosseria, e, após uma longa conversa particular com Sir Henry, no escritório, verificou-se que não existe rancor e devemos mesmo jantar com Merripit na semana que vem, como prova.

— Não digo agora que ele não seja louco — explicou-me Sir Henry . — Não me esqueço do seu olhar, quando correu em minha direção, na manhã de hoje, mas reconheço que ninguém teria se desculpado mais elegantemente.

— Deu alguma explicação para o seu procedimento?

— Disse que a irmã é tudo o que ele tem na vida. Isso é natural, e fico satisfeito por ver que ele lhe reconhece valor. Sempre viveram juntos, e, pelo que me disse, tem levado uma vida solitária, só com a irmã como companhia. A ideia de perdê-la pareceu lhe insuportável. Disse que não percebera que eu começava a gostar dela e que, quando viu com os próprios olhos como andavam as coisas e que ela poderia ser roubada, teve um choque tão grande que por mim momento ficou fora de si. Sente muito o que se passou e reconhece que foi tolice e egoísmo da sua parte imaginar que poderia prender a seu lado uma mulher tão bonita como a irmã. Se tiver de perdê-la, antes com um vizinho como eu do que com uni estranho. De qualquer maneira, foi um golpe para ele e diz que precisa de tempo para se habituar ideia. Desistirá de qualquer oposição, se eu prometer não pensar nisto durante três meses, cultivando esse tempo a amizade da irmã, sem falar em amor. Prometi, e as coisas estão neste pé.

Como vê, caro Holmes, um dos nossos mistérios está esclarecido. já é alguma coisa ter chegado ao âmago de um fato, neste lodaçal onde patinhamos. Sabemos agora por que motivo Stapleton não via com bons olhos o pretendente da irmã, embora fosse um pretendente como Sir Henry.

Passo agora a outro fio que desenredei da meada, o mistério dos soluços à noite, do rosto marcado da sra. Barrymore e das viagens secretas do mordomo à janela oeste. Felicite-me, caro Holmes, e diga-me que não o decepcionei como agente — que não se arrepende da prova de confiança, quando me enviou para cá. Todas essas coisas foram esclarecidas com o trabalho de uma noite.

Eu disse ‘de uma noite’, mas, na realidade, foram duas, pois na primeira nada aconteceu. Ficamos no quarto de Sir Henry até as três da madrugada e não ouvimos som algum, a não ser o do relógio na escada. Foi uma vigília melancólica, e acabamos por adormecer nas poltronas. Felizmente não desanimamos e resolvemos tentar de novo. Na noite seguinte, diminuímos a luz do lampião e ficamos fumando sem fazer o mínimo barulho. Incrível como as horas se arrastaram, mas ajudava-nos o mesmo paciente interesse que deve sentir o caçador, ao observar a armadilha onde a caça poderá cair. Uma hora, duas horas e, quando pela segunda vez íamos desistir, de repente empertigamo-nos na cadeira, com todas as faculdades aguçadas. Tínhamos ouvido o ruído de passos no corredor.

Passos furtivos, que passavam pela nossa porta e morriam ao longe. O baronete abriu suavemente a porta, e saímos em perseguição. O nosso homem já contornara a galeria, e o corredor estava às escuras. Caminhamos de mansinho até chegar à outra ala. Tivemos apenas tempo de vislumbrar o vulto alto, de barba preta, ombros para a frente, que caminhava na ponta dos pés, pelo corredor afora. Chegou então à mesma porta do outro dia, e a luz da vela lançou um único raio amarelo no corredor. Para lá nos dirigimos cautelosamente, experimentando cada urna das tábuas, antes de nela ousar apoiar o peso do corpo. Tínhamos tido o cuidado de tirar os sapatos, mas, mesmo assim, o soalho rangia de vez em quando. Às vezes parecia impossível que ele não percebesse a nossa aproximação. Felizmente o homem é mesmo surdo e, além disso, estava atento ao que fazia. Quando finalmente chegamos àquela determinada porta e espreitamos para dentro, vimos Barrymore agachado diante da janela, de vela na mão, o rosto ardente e pálido contra a vidraça, exatamente como eu o vira duas noites antes.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Não tínhamos plano de campanha, mas o baronete é um homem a quem a maneira mais direta de agir parece a mais natural. Entrou no quarto. Barrymore deu um salto, soltando uma exclamação ofegante, e ficou trêmulo diante de nós. Seus olhos escuros, brilhando na máscara lívida do rosto, estavam cheios de espanto, enquanto ele olhava de Sir Henry para mim.

— Que está fazendo aqui, Barrymore?

— Nada, senhor, nada. — A sua agitação era tão grande que ele mal podia falar, e as sombras projetadas pela vela subiam e desciam. — Fui à janela, senhor. Dou uma volta todas as noites, para verificar se estão fechadas.

— No segundo andar?

— Sim, senhor, todas as janelas.

— Ouça, Barrymore disse Sir Henry severamente. — Estamos dispostos a saber a verdade, de modo que, para evitar trabalho, quanto mais depressa você contar, melhor. Vamos! Nada de mentiras! O que está fazendo aí nessa janela?

O homem olhou-nos com ar desamparado, comprimindo as mãos, como se estivesse em dúvida e profundamente infeliz.

— Não estava fazendo mal nenhum, senhor. Estava com a luz diante da janela.

— E por que estava fazendo tal coisa?

— Não me pergunte, Sir Henry, não me pergunte! Dou-lhe a minha palavra, senhor, de que não é meu o segredo e de que não posso contá-lo. Se se tratasse de mim, dou-lhe a minha palavra de que nada lhe esconderia.

Ocorreu-me uma ideia súbita, e peguei a vela que o mordomo colocara sobre o peitoril.

— Ele devia estar fazendo qualquer sinal disse eu. — Vejamos se há resposta.

Segurei a vela como o vira fazer, e fiquei espreitando a escuridão da noite. Distingui vagamente o negro amontoado de árvores e a extensão da charneca, um pouco mais clara, pois havia lua por trás das nuvens. Nisso, soltei uma exclamação de júbilo, pois um pontinho de luz amarela surgira de repente no véu escuro, brilhando no centro do quadro negro emoldurado pela janela.

— Lá está! — gritei.

— Não, não, senhor, não é nada. . . nada — disse o mordomo. Garanto, senhor.

— Mova a vela diante da vidraça, Watson! — exclamou o baronete. – Veja, a outra luz também se move! Agora, miserável, nega que seja um sinal? Vamos, fale! Quem é o seu cúmplice. lá adiante, e que conspiração é essa?

A expressão do rosto de Barrymore tornou-se francamente desafiadora.

— E assunto meu e não seu. Nada direi.

— Então deixará imediatamente esta casa.

— Muito bem, senhor. Se é assim, paciência.

— E sai da pior maneira. Com os diabos, você devia ter vergonha de si próprio. Sua família tem vivido com a minha há mais de cem anos, sob este teto, e agora encontro-o conspirando contra mim.

— Não, não, senhor, não contra o senhor!

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Uma voz de mulher dissera isso. Mais pálida e mais horrorizada do que o marido, a sra. Barrymore estava junto à porta. A sua figura pesada, de saia e xale, pareceria cômica, se não fosse a intensidade da expressão do seu rosto.

— Temos de ir embora, Elisa. E o fim. Pode arrumar as nossas coisas — disse o mordomo.

— Oh, John, John, fui eu que lhe fiz isto! A culpa é minha, Sir Henry, toda minha. Ele só fez isto por minha causa e porque lhe pedi.

— Fale, então! Que significa?

— Meu pobre irmão está morrendo de fome lá na charneca. Não podemos deixá-lo morrer à nossa porta. A vela é um sinal para dizer que a comida está pronta, e, com a outra luz, ele indica o lugar onde devemos deixá-la.

— Então seu irmão é…

— O condenado evadido, senhor… Selden, o criminoso.

— E verdade, senhor — confirmou Barrymore. — Eu disse que não era um segredo meu e que nada podia lhe contar. Mas agora já sabe, e pode ver que não se tratava de conspiração contra o senhor.

Era essa, então, a explicação das furtivas expedições à noite e da luz à janela. Sir

Henry e eu olhamos, atônitos, para a mulher. Seria possível que aquela criatura respeitável tivesse o mesmo sangue de um dos mais célebres criminosos cio país?

— Sim, senhor, o meu nome era Selden, e ele é meu irmão mais novo. Nos o mimamos demais, quando era pequeno, satisfazendo-lhe todas as vontades ate que ele se convenceu de que o mundo era seu e que podia fazer o que bem entendesse. Depois, à medida que foi crescendo, começou a andar com más companhias, Acabou com minha mãe e arrastou pela lama o nosso nome. Desceu cada vez mais, cometendo crime após crime, e somente a bondade dc Deus permitiu que escapasse ao cadafalso. Mas, para mim, senhor, nunca deixou de ser o menino de cabelos encaracolados com quem brinquei e de quem cuidei, como costuma fazer a irmã mais velha. Foi por isso que ele fugiu da prisão, senhor. Sabia que eu estava perto e que não me recusaria a ajudá-lo. Quando se arrastou até aqui, uma noite, cansado e faminto, com os guardas no seu encalço, que poderíamos lazer? Demos-lhe abrigo, comida e carinho. Depois, o senhor voltou, e meu marido achou que ele esta ria mais seguro no campo do que em qualquer outro lugar, até que tudo acalmasse. Lá está e!e, escondido Mas todas as noites procuramos nos certificar se ainda se encontrava lá, pondo uma luz, na janela. Quando o sinal era correspondido, meu marido lhe levava carne e pão. Desejávamos, de cada vez, que já tivesse partido, mas, enquanto ali estivesse, não poderíamos abandoná-lo. É essa a verdade, juro por tudo o que é sagrado, e o senhor compreenderá que, se houver culpa, não é de meu marido e sim minha, pois foi por minha causa que ele agiu assim.

A mulher falava num tom ardente, que indicava sinceridade.

— É verdade, Barrymore?

— É, sim, Sir Henry. Palavra por palavra.

— Bom, não posso censurá-lo por ter ficado ao lado de sua mulher. Esqueça o que eu disse. Vá para o seu quarto e de manhã discutiremos o caso.

Depois que eles saíram, olhamos de novo pela janela. Sir Henry abrira-a completamente, e o ar frio da noite bateu-nos em cheio no rosto. Ao longe, ainda brilhava aquele pontinho amarelo de luz.

— Não sei como ele tem coragem — observou Sir Henry.

— Talvez a vela esteja colocada de maneira a ser vista somente daqui.

— Provavelmente. A que distância calcula você que esteja?

— Creio que perto de Cleft Tor.

— Então não está a mais de três quilômetros.

— Nem tanto.

— Bom, não deve ser muito longe, uma vez que Barrymore tinha de levar a comida até lá. E o miserável está à espera, junto da sua vela. Com os diabos, Watson, vou até lá pôr as mãos no homem!

A ideia também me ocorrera. Não era como se Barrymore nos tivesse feito confidências. Tínhamos-lhe arrancado o segredo. O homem era um perigo para a comunidade, um bandido sem escrúpulos, para quem não havia desculpa nem devia haver piedade. Estaríamos apenas cumprindo o nosso dever, ao tentar mandá-lo regressar à prisão, onde não poderia prejudicar ninguém. Com o seu gênio violento e brutal, outros sofreriam se não tentássemos apanhá-lo. Qualquer noite, os nossos vizinhos, os Stapletons, por exemplo, poderiam ser atacados por ele e era talvez esse pensamento que incitava Sir Henry a interessar-se tanto pela aventura.

— Também vou — disse-lhe.

— Então vá buscar o seu revólver e calce as botas. Quanto mais depressa formos, melhor, pois o sujeito é capaz de apagar a luz e fugir.

Cinco minutos depois, estávamos a caminho. Atravessamos rapidamente as moitas, no meio dos gemidos monótonos do vento de outono e do sussurrar das folhas que caíam. O ar da noite estava pesado, com cheiro de umidade e de coisas apodrecidas. De vez em quando, a lua espreitava por um instante, mas as nuvens velavam a face do céu; assim que entramos na charneca, uma chuvinha fina começou a cair. A luz ainda brilhava à nossa frente.

— Está armado? — perguntei.

— Trouxe um chicote de caça.

— Temos de cercá-lo rapidamente, pois dizem que é um sujeito violento. Será apanhado de surpresa e ficará à nossa mercê, antes que possa resistir.

— Ouça, Watson, que pensaria Holmes? perguntou o baronete. Que me diz você das horas sombrias, em que os poderes do mal estão exaltados?

Como que em resposta, ergueu-se no meio da imensa planície o grito estranho que eu já ouvira à beira do grande atoleiro de Grimpen. O vento transportou-o através do silêncio da noite: um murmúrio longo e profundo, que se transformou em rugido e, finalmente, no triste gemido com que sempre terminava. Repetiu-se depois, abalando a noite, estridente, selvagem e ameaçador. O baronete segurou-me pela manga; o seu rosto, de tão pálido, pareceu brilhar na escuridão.

— Deus do céu, Watson, o que é isso?

— Não sei. É um som que existe na charneca. já o ouvi, uma vez.

O som morreu, e à nossa volta o silêncio tornou-se absoluto. Esforçamo-nos para ouvir mais alguma coisa, mas o som não se repetiu.

— Watson, foi o grito de um sabujo — disse o baronete.

O sangue me gelou nas veias, pois havia na sua voz uma nota que denunciava profundo terror.

— Que explicação dão para isso? — perguntou.

— Quem?

— As pessoas da região.

— Oh, é gente ignorante. Por que se importa com o que dizem?

— Conte-me, Watson. Que dizem eles?

Hesitei, mas não pude fugir a uma resposta.

— Dizem que é o uivo do cão de Baskerville.

Sir Henry gemeu e ficou em silêncio por alguns segundos.

— Era um cão, sim — disse finalmente. — Mas parecia estar a quilômetros de distância.

— É difícil dizer de onde vinha o som.

— Subia e descia com o vento. Não é a direção do grande atoleiro de Grimpen?

— É, sim.

— Pois veio de lá. Vamos, Watson, não achou também que era um grito de sabujo? Não sou criança. Não tenha medo de dizer a verdade.

— Stapleton estava comigo quando ouvi isso da outra vez. Disse que poderia ser o grito de um pássaro estranho.

— Não, não, era um sabujo. Meu Deus, poderá haver um fundo de verdade nessas histórias? Será possível que eu corra perigo por tão sombria causa? Você não acredita, não, Watson?

— Não, não.

— Mas uma coisa era rir disto em Londres, e outra é estar aqui na escuridão da planície e ouvir esses uivos. E o meu tio! . . . Havia a marca de um cão, no chão, a seu lado. Está tudo de acordo. Não me julgo covarde, Watson, mas aquele som me gelou o sangue nas veias. Veja a minha mão!

Estava fria como um bloco de mármore.

— Amanhã estará bem de nove.

— Não creio que aquele grito me saia dos ouv.idos. Que me aconselha agora?

— Vamos voltar?

— Não, com os diabos! Viemos apanhar o nosso homem e temos de fazê-lo. Estamos no rastro de um condenado, e parece que um cão do inferno anda atrás de nós. Vamos. Iremos até o fim, mesmo que todos os demônios do inferno estejam soltos na planície.

Caminhamos lentamente, tropeçando, com os morros rochosos à nossa volta e a luzinha amarela brilhando em frente. Nada engana tanto como uma luz longínqua, na escuridão da noite; às vezes o brilho parecia estar no horizonte e outras vezes a poucos metros de nós. Finalmente pudemos ver de onde vinha; estávamos realmente muito perto. Uma vela estava enfiada numa fenda, flanqueada dos dois lados pela rocha, para ficar protegida do vento e também para não ser vista, a não ser de Baskerville Hall. Um bloco de granito ocultava a nossa aproximação; agachados atrás dele, olhamos para a luz reveladora. Estranho ver aquela vela solitária brilhando na charneca, sem sinal de vida perto — apenas a chama amarela c ereta, com a rocha de ambos os lados.

— Que faremos agora? perguntou Sir Henry.

— E melhor esperarmos aqui. Ele deve estar perto da vela. Vamos ver se conseguimos descobri-lo.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Mal eu pronunciara essas palavras, ambos o vimos. No meio das rochas, na fenda onde estava a vela, surgiu um rosto diabólico, amarelo e animalesco, deformado por vis paixões. Sujo de lama, com uma barba sórdida e cabelos imundos, poderia ter pertencido àqueles selvagens que moravam em coelheiras, nas encostas dos morros. A luz que vinha de baixo refletia-se nos olhos pequenos e sagazes. que olhavam ferozmente da direita para a esquerda, na escuridão, como um animal selvagem e astuto que tivesse ouvido passos de caçador.

Qualquer coisa despertara as suas suspeitas. Talvez Barrymore tivesse algum sinal convencionado, que não tínhamos podido fazer, ou talvez tivesse outras razões para desconfiar, mas notei medo no seu rosto feroz. A qualquer momento, poderia apagar a chama e fugir, no meio da escuridão. Pulei, portanto, para a frente, e Sir Henry fez o mesmo. Nesse momento, o condenado blasfemou contra nós e atirou-nos uma pedra, que bateu na rocha que nos protegia. Vi de relance o vulto atarracado, forte, que pulou e começou a correr. Por sorte, nesse momento a lua surgiu de trás de uma nuvem. Corremos em sua perseguição e vimos o homem do outro lado, pulando entre as pedras, com a agilidade de um cabrito montês. Com um tiro feliz eu talvez pudesse atingi-lo, mas viera armado apenas para me defender e não para atirar em um homem desarmado, que fugia.

Sir Henry e eu éramos bons corredores e estávamos em boas condições, mas depressa percebemos que não poderíamos alcançá-lo. Ainda o vimos por muito tempo, até nada mais ser do que uma pequena mancha, movendo-se rapidamente no meio das rochas de um morro distante. Corremos até ficar sem fôlego, mas a distância entre ele e nós aumentava cada vez mais. Finalmente, paramos e ficamos sentados em duas rochas até vê-lo desaparecer.

Sidney Paget, 1902

Sidney Paget, 1902

Nesse momento, ocorreu a coisa mais estranha e mais inesperada deste mundo. Tínhamo-nos levantado e nos preparávamos para voltar para casa, desistindo da perseguição. A lua estava baixa, à direita, e o cume recortado de um morro de granito desenhava-se contra a curva inferior do círculo de prata. Ali, negra qual estátua de bronze, vi a silhueta de um homem alto, contra o fundo claro e luminoso. Não pense que foi ilusão de óptica, Holmes. Garanto que nunca em toda a minha vida vi mais nitidamente. Pelo que pude julgar, era o vulto de um homem alto e magro. Estava de pernas ligeiramente entreabertas, braços cruzados,cabeça baixa, como que pensativo, olhando a extensão de turfa e granito à sua frente. Parecia o espírito daquele lugar terrível. Não era o condenado, O homem estava muito longe do lugar onde o bandido desaparecera. Além disso, era muito mais alto. Com uma exclamação de surpresa, mostrei-o ao baronete, mas no momento em que agarrei o braço do meu amigo o vulto desapareceu. Lá estava o cume agudo do morro, cortando a parte inferior da lua, mas não havia vestígio do homem imóvel e silencioso.

Desejei ir naquela direção e investigar, mas ficava um pouco distante. Os nervos do baronete ainda estavam abalados pelos uives do cão, que lembravam a negra história da sua família, e ele não se encontrava em estado de se lançar em novas aventuras. Não vira o homem solitário e não podia sentir a emoção que aquela estranha presença me causara.

— Um guarda, com certeza — disse ele. — A planície está cheia deles, desde que o sujeito fugiu.

Pois bem, talvez a explicação fosse essa, mas eu gostaria de ter tirado tudo a limpo. Temos a intenção de avisar ainda hoje a diretoria da prisão de Princetown, para que eles saibam onde procurar o homem, mas é duro saber que não conseguimos apanhá-lo.

São essas as aventuras de ontem à noite, e deve concordar, caro Holmes, que tenho feito tudo para pô-lo a par dos acontecimentos. Muitas das coisas que lhe contei talvez lhe pareçam sem importância, mas achei interessante dizer- lhe tudo e deixar a seleção por sua conta. Não há dúvida de que estamos fazendo progressos. No tocante ao casal Barrymore, sabemos a razão dos seus atos, e isso desanuviou bastante a situação. Mas a charneca, com os seus mistérios e os seus estranhos habitantes, continua inescrutável. E possível que, em meu próximo relatório, possa lançar um raio de luz sobre esse ponto também. Mas melhor seria se você pudesse vir para perto de nós.”

The Hound of the Baskervilles, 1902

Capítulo 1: Sherlock Holmes § Capítulo 2: A maldição dos Baskervilles
Capítulo 3: O problema § Capítulo 4: Sir Henry Baskerville
Capítulo 5: Três fios partidos § Capítulo 6: Baskerville Hall
Capítulo 7: Os Stapletons da Casa Merripit § Capítulo 8: Primeiro relatório do dr. Watson
Capítulo 9: Segundo relatório do dr. Watson – Luz na charneca
Capítulo 10: Extratos do diário do dr. Watson § Capítulo 11: O homem na rocha
Capítulo 12: Morte na charneca § Capítulo 13: Armando a rede
Capítulo 14: O cão dos Baskervilles § Capítulo 15: Retrospecto

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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