O signo dos quatro – Capítulo 4

Arthur Conan Doyle

O signo dos quatro
Capítulo quarto

Título original: The Sign of Four
Publicado em Lippincott’s Magazine, Fev., 1890.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Sign of Four publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo quarto: A história do homem calvo

Acompanhamos o indiano através de um corredor sórdido e vulgar, mal-iluminado e ainda mais mal-mobiliado, até uma porta à direita, que ele abriu. Um jato de luz amarelada inundou-nos, e no centro desse fulgor deparamos com um homenzinho de cabeça pontuda, orlada por uma linha eriçada de cabelos ruivos que lhe acentuavam o cocuruto calvo e reluzente, como um pico montanhoso emergindo entre abetos.

Estava de pé, esfregando as mãos, com as feições em contínuo movimento, ora sorrindo, ora enrugando a testa, sem um instante de repouso sequer. A natureza tinha lhe dado um lábio pendente e uma linha demasiado visível de dentes amarelos e irregulares, que ele em vão procurava esconder, passando continuamente a mão na parte inferior do rosto. A despeito da calvície conspícua, parecia jovem. Aliás, acabava de entrar na casa dos trinta.

— Um criado seu, srta. Morstan — repetia ele, numa voz estridente. — Um criado seu, cavalheiros. Queiram entrar no meu refúgio. Ë uma salinha pequena, senhorita, mas mobiliada de acordo com o meu gosto. Um oásis de arte no áspero deserto de South End.

Ficamos atônitos ante o aspecto do aposento em que ele nos introduziu. Naquela casa desolada, parecia tão fora de lugar como um diamante de primeira água num engaste de latão. As mais ricas e soberbas cortinas e tapeçarias revestiam as paredes, arrepanhadas aqui e ali para mostrar um quadro finamente emoldurado ou um vaso oriental, O tapete era negro e âmbar, tão macio e espesso que os pés se afundavam agradavelmente nele como num leito de musgo. Duas grandes peles de tigre, em cima dele, aumentavam a impressão de iuxo oriental, bem como um enorme narguilé, a um canto, sobre uma esteira. Um candeeiro de prata, lavrado em forma de pomba e preso a um fio de ouro quase invisível, pendia no centro da sala. Ardia nele uma substância aromática que impregnava docemente o ar.

— Sr. Thaddeus Sholto — disse o homenzinho, com os seus trejeitos e sorrisos. — É o meu nome. É a srta. Morstan, sem dúvida. E esses cavalheiros…

— Sr. Sherlock Holmes e dr. Watson.

— Um médico, hein? — exclamou ele, muito alvoroçado. — Trouxe o seu estetoscópio? Posso pedir-lhe que…teria o senhor a bondade? Tenho graves dúvidas quanto à minha válvula mitral, se quiser me fazer o favor. A aorta não me preocupa, mas gostaria muito de ouvir a sua opinião sobre a válvula mitral.

Auscultei-lhe o coração, como me pedia, mas não pude encontrar nada de estranho, exceto, realmente, que o homem estava num transe de medo, pois tremia da cabeça aos pés.

— Parece normal — disse-lhe eu. — O senhor não tem motivos para se preocupar.

— A senhorita desculpe a minha ansiedade — acrescentou ele, negligentemente, para a srta. Morstan. — Sou um homem muito doente, e há tempos que tinha as minhas suspeitas sobre essa válvula. Estou encantado por saber que eram infundadas. Se o seu pai, srta. Morstan, não abusasse do coração como abusou, talvez ainda estivesse vivo.

Tive vontade de esbofeteá-lo, tão indignado fiquei ante essa referência grosseira e intempestiva a um assunto tão delicado. A srta. Morstan sentou-se sem uma gota de sangue no rosto.

— Eu tinha a íntima certeza de que ele estava morto — disse ela.

— Posso dar-lhe todas as informações — acrescentou ele —, e mais, posso fazer-lhe justiça. E certamente a farei, diga o que disser meu irmão Bartholomew. Tenho muito prazer em ver os seus amigos aqui, não apenas como seus acompanhantes, mas também como testemunhas do que vou fazer e dizer. Poderemos comparecer os três de cabeça erguida perante meu irmão Bartholomew. Mas nada de estranhos… de policiais ou autoridades. Podemos resolver tudo satisfatoriamente entre nós, sem qualquer interferência. Nada aborreceria tanto o irmão Bartholomew como a publicidade.

Dito isso, sentou-se num canapé baixo e pousou inquisidoramente em nós os seus olhos azuis, piscos e lacrimejantes.

— Da minha parte — disse Holmes —, tudo o que o senhor possa dizer não sairá daqui.

Concordei com um aceno de cabeça.

— Excelente! Excelente! — disse ele. — Posso oferecer-lhe um copo de chianti, srta. Morstan? Ou de tócai? Não tenho outros vinhos. Abro uma garrafa? Não? Muito bem, então espero que não se oponha ao fumo, ao balsâmico odor do tabaco oriental. Estou um pouco nervoso, e o meu narguilé é um precioso sedativo.

Aproximou a chama de uma vela do recipiente bojudo, e a fumaça começou a borbulhar alegremente através da água de rosas. Sentamo-nos os três em semicírculo, com a cabeça inclinada para a frente e o queixo nas mãos; e o estranho homenzinho dos trejeitos, de crânio pontudo e reluzente, ficou no centro, tirando baforadas inquietas.

— Logo que resolvi fazer-lhe essa comunicação — prosseguiu ele —, podia ter enviado o meu endereço, mas receei que a senhorita não ligasse ao meu pedido e trouxesse pessoas desagradáveis. Tomei a liberdade, por conseguinte, de marcar o encontro de tal maneira que o meu criado Williams pudesse vê-los primeiro. Tenho inteira confiança na discrição dele, e recomendei-lhe que não fizesse nada se a companhia não lhe agradasse. Espero que me perdoem essas precauções, mas sou um homem de gostos um tanto discretos, e até poderia dizer requintados, de forma que para mim não há nada mais antiestético do que um policial. Tenho uma aversão natural a todas as formas de materialismo grosseiro. Raramente entro em contato com o populacho. Moro, como vêem, cercado por um ambiente de certa elegância. Posso me chamar de padroeiro das artes. E a minha fraqueza. Essa paisagem é um Corot legítimo, e, embora um conhecedor tenha algumas dúvidas quanto a esse Salvador Rosa, não poderá haver nenhuma questão quanto ao Bouguereau. Inclino-me bastante pela moderna escola francesa.

— O senhor há de me desculpar, sr. Sholto — disse a srta. Morstan —, mas estou aqui a seu pedido para ouvir uma coisa que deseja me dizer. E muito tarde, e eu gostaria que esta conversa fosse a mais breve possível.

— De qualquer modo, levará algum tempo respondeu ele —, pois com certeza teremos de ir a Norwood para ver meu irmão Bartholomew. Iremos todos, e tentaremos acalmar meu irmão. Ele está furioso comigo por eu ter tomado a atitude que me pareceu correta. Tivemos uma acalorada troca de palavras ontem à noite. Os senhores não imaginam como ele é terrível quando se enfurece.

— Se vamos a Norwood, talvez fosse conveniente partirmos imediatamente — aventurei-me a observar.

Ele riu até ficar com as orelhas vermelhas.

— Isso não adiantaria nada — disse. — Não sei o que ele seria capaz de dizer se eu os levasse assim de repente. Não, preciso prepará-los primeiro, definindo a situação em que estamos. Inicialmente, devo dizer-lhes que há diversos pontos da história que eu próprio ignoro. Posso apenas expor-lhes os fatos até onde os sei.

“Meu pai”, prosseguiu o homenzinho, “como já devem ter adivinhado, era o major John Sholto, do exército indiano. Ele se aposentou há uns onze anos, e foi morar na Pondicherry Lodge, em Upper Norwood. Como tinha prosperado na índia, trouxe consigo uma considerável soma de dinheiro, uma grande coleção de curiosidades valiosas e um séquito de criados nativos. Com essas vantagens, comprou uma casa para si e começou a viver em grande luxo. Meu irmão gêmeo, Bartholomew, e eu éramos os únicos filhos.

“Lembro-me muito bem da sensação causada pelo desaparecimento do capitão Morstan. Lemos os pormenores nos jornais e, sabendo que ele fora grande amigo de nosso pai, discutimos livremente o caso na sua presença. Ele se unia às nossas especulações quanto ao que teria acontecido. Nunca, sequer por um instante, suspeitamos que ele tivesse todo o segredo guardado no peito, e que, de todos, era o único a saber do destino de Arthur Morstan.

“Sabíamos, no entanto, que algum mistério, que algum perigo positivo pairava sobre o nosso pai. Ele tinha muito medo de sair sozinho, e sempre teve ao seu serviço dois guarda-costas disfarçados de porteiros da Pondicherry Lodge. Williams, que os trouxe aqui esta noite, era um deles. Já foi campeão de boxe, na Inglaterra, entre os lutadores de peso leve. Nosso pai nunca nos revelou o que temia, mas demonstrava enorme aversão por homens com perna de pau. Uma ocasião, chegou a disparar o revólver contra um homem sem uma perna, para depois verificar que o homem não passava de um inofensivo vendedor exercendo o seu trabalho. Tivemos de pagar uma grande quantia para abafar o assunto. Meu irmão e eu costumávamos pensar que aquilo era apenas um capricho de nosso pai, mas posteriormente os acontecimentos nos levaram a mudar de opinião.

“Em princípio de 1882, meu pai recebeu uma carta da India que lhe causou grande abalo. Quase desmaiou à mesa do almoço quando a abriu, e desde esse dia foi sempre piorando até que morreu. Nunca pudemos descobrir o que continha a carta, mas, enquanto ele a segurou na mão, vi que era breve e garatujada em péssima letra. Havia muitos anos que ele sofria de dilatação do baço, mas piorou rapidamente, e em fins de abril fomos informados de que não havia mais esperanças e que ele desejava falar conosco pela última vez.

“Quando entramos no quarto, ele estava soerguido nos travesseiros e respirava com dificuldade. Suplicou-nos que fechássemos a porta e nos aproximássemos do leito, um de cada lado. Depois, agarrando-nos as mãos, fez-nos uma singular declaração, em voz entrecortada pela dor e pela comoção. Procurarei reproduzi-la nas suas próprias palavras:

“‘Tenho somente uma coisa me pesando na consciência, neste momento supremo. E a maneira como tenho tratado a órfã do pobre Morstan. Esta maldita ambição, que foi o meu constante pecado através da existência, tem roubado o tesouro cuja metade, pelo menos, devia ser dela. Contudo, ainda não toquei nele, tão cega e insensata é a avareza, O simples sentimento de posse tem sido tão caro a mim, que nunca pude suportar a idéia de dividi-lo com alguém. Vêem essa grinalda de pérolas ao lado do frasco de quinino? Pois até disso não pude me separar, embora a tenha tirado com a intenção de mandar a ela. Vocês, meus filhos, lhe darão uma justa parte do tesouro de Agra. Mas não lhe mandem nada. . . nem mesmo a grinalda. . . antes de eu falecer. Afinal de contas, muitos homens têm estado tão mal como eu e conseguiram escapar.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

“‘Vou lhes dizer como morreu Morstan’, continuou meu pai. ‘Havia muitos anos que ele sofria do coração, mas não dizia isso a ninguém. Só eu sabia. Quando estávamos na Índia, ele e eu, por um singular conjunto de circunstâncias, entramos na posse de um considerável tesouro. Eu o trouxe comigo para a Inglaterra, e, na noite em que Morstan chegou, veio imediatamente aqui a fim de levar a sua parte. Veio da estação a pé e foi recebido pelo meu fiel e velho Lal Chowdar, que já faleceu. Morstan e eu tivemos opiniões opostas quanto à divisão do tesouro, e trocamos palavras acaloradas. Ele acabava de saltar da cadeira, num ímpeto de cólera, quando levou subitamente a mão ao peito, com o rosto arroxeado, e caiu para trás, batendo a cabeça na quina da arca onde estava o tesouro. Inclinando-me sobre ele, vi, horrorizado, que estava morto.

“‘Durante longo tempo, fiquei atordoado na minha cadeira, sem saber o que fazer, O meu primeiro impulso, naturalmente, foi pedir auxílio; mas não podia deixar de reconhecer que, segundo todas as probabilidades, seria acusado de tê-lo assassinado. A sua morte, ocorrida num momento de discussão, e aquele ferimento na cabeça, seriam provas irremovíveis. Além disso, um inquérito oficial não deixaria de evidenciar certos fatos acerca do tesouro, fatos que eu ansiosamente desejava manter em segredo. Morstan dissera- me que ninguém no mundo sabia aonde ele tinha ido. E não me parecia haver necessidade de que o soubessem agora.

“‘Estava ainda pensando no assunto, quando, erguendo os olhos, vi meu criado, Lal Chowdar, no limiar da porta. Esgueirou-se para dentro e trancou-a.

‘— Não tema, sahib — disse ele; — ninguém precisa saber que o senhor o matou. Vamos escondê-lo e ver quem pode mais!

“‘Repliquei-lhe que não o tinha matado, mas Lal Chowdar meneou a cabeça e sorriu.

“‘Ouvi tudo, sahib — disse ele; — ouvi a discussão e o golpe. Mas os meus lábios estão fechados. Todos estão dormindo. Podemos tirá-lo daqui.

“‘Aquilo foi o bastante para me decidir. Se o meu próprio criado não podia acreditar na minha inocência, como esperar que ela ficasse provada perante doze comerciantes idiotas num tribunal? Lal Chowdar e eu demos sumiço no corpo nessa mesma noite, e poucos dias depois os jornais londrinos noticiavam o misterioso desaparecimento do capitão Morstan. Vocês verão, pelo que lhes digo, que não tenho a menor culpa. A minha única falta está no fato de que escondemos não apenas o corpo, como também o tesouro, e que tenho-me aferrado ao quinhão de Morstan como se fosse meu. Desejo, por isso, que façam a restituição. Aproximem- se para ouvir-me. O tesouro está escondido em… ’

“Nesse instante”, prosseguiu o homenzinho da calva reluzente, “uma horrível transformação ocorreu na fisionomia de meu pai. Seus olhos se arregalaram, seu queixo caiu, e ele gritou numa voz que nunca poderei esquecer:

“‘Não o deixem entrar! Pelo amor de Deus, não o deixem entrar!’

“Voltamo-nos para a janela, onde ele tinha os olhos pregados. Um rosto olhava da escuridão. Distinguíamos perfeitamente o branco do nariz achatado contra a vidraça. Era um rosto barbudo, cabeludo, com olhos selvagens, cruéis, e uma expressão de concentrada malevolência. Meu irmão e eu corremos para a janela, mas o homem já havia desaparecido. Quando voltamos para junto de meu pai, sua cabeça tinha tombado e o coração cessara de bater.

“Esquadrinhamos o jardim, nessa noite, mas não encontramos nenhum sinal do intruso, exceto a marca de um só pé, deixada no canteiro, junto à janela. Se não fosse esse único traço, bem podíamos ter pensado que a nossa imaginação é que conjecturara aquele rosto selvagem e cruel. Todavia, tivemos em seguida uma prova ainda mais forte de que forças secretas trabalhavam em torno de nós. Na manhã seguinte, a janela do quarto de meu pai foi encontrada aberta, e os seus armários e malas, na mais completa desordem. Na cômoda, estava afixado um pedaço de papel, e nele se viam garatujadas as palavras: ‘O signo dos quatro’. Nunca soubemos o que essa frase significava, nem quem pudesse ter sido o nosso visitante. Até onde posso julgar, nenhum objeto de meu pai fora roubado, mas tudo tinha sido remexido. Meu irmão e eu, naturalmente, ligamos esse singular incidente ao medo que acossava meu pai durante a sua existência; mas ainda é um completo mistério para nós.”

O homenzinho interrompeu-se para reacender o seu narguilé e ficou alguns instantes fumando pensativamente. Sentados nos nossos lugares, absortos, tínhamos ouvido a sua extraordinária narrativa. Durante o breve relato da morte do pai da srta. Morstan, ela ficara mortalmente pálida, e por um instante receei que fosse desmaiar. Refez-se, contudo, bebendo o copo de água que discretamente lhe servi de uma garrafa veneziana que estava sobre uma mesinha a meu lado. Sherlock Holmes continuava recostado na sua cadeira com uma expressão abstrata, de pálpebras meio descidas sobre os olhos cintilantes. Ao observá-lo, não pude deixar de recordar o quanto, nesse mesmo dia, ele se queixara da banalidade da vida. Ali, ao menos, estava um problema que exigiria o máximo da sua sagacidade. O sr. Thaddeus Sholto olhava de um para outro de nós com evidente orgulho pelo efeito causado pela sua história, e então prosseguiu, entre baforadas do seu desmesurado cachimbo:

— Meu irmão e eu ficamos, como podem imaginar, muito alvoroçados com o tesouro de que meu pai havia f a- lado. Durante semanas e meses, cavamos e revolvemos todos os recantos do jardim sem descobrir seu paradeiro. Era de enlouquecer pensar que o esconderijo estava nos seus lábios no momento em que morreu. Podíamos avaliar o esplendor das riquezas desaparecidas pela grinalda que ele tirara. Quanto a essa grinálda, meu irmão e eu tivemos uma pequena discussão. As pérolas eram evidentemente de grande valor, e ele não aceitava a idéia de se separar delas, pois, aqui entre amigos, também ele tinha certa tendência para o defeito de meu pai. Pensava, além disso, que, se nos desfizéssemos da grinalda, talvez pudéssemos nos meter em apuros. Tudo o que pude fazer foi persuadi-lo a que me deixasse descobrir o endereço da srta. Morstan e mandar-lhe uma pérola a intervalos determinados, a fim de que pelo menos ela nunca passasse necessidades.

— Foi uma idéia comovente — disse a nossa companheira gravemente. — Foi grande bondade da sua parte.

O homenzinho ondulou a mão num gesto depreciativo.

— Nós lhe éramos devedores — disse ele. — Pelo menos, era essa a minha maneira de ver, embora meu irmão Bartholomew não tivesse a mesma opinião. Ambos tínhamos dinheiro bastante. Eu não desejava mais. Além disso, era de muito mau gosto tratar uma jovem de modo tão mesquinho. Le mauvais goüt mène au crime [1]. Os franceses têm uma maneira incisiva de dizer essas coisas. Nossa diferença de opiniões foi tão longe que achei melhor morar separado, e deixei o Pondicherry Lodge, trazendo comigo Williams e o velho kbitmutgar. Ontem, porém, soube que tinha ocorrido um fato de extrema importância. O tesouro fora descoberto. Comuniquei-me imediatamente com a srta. Morstan, e agora só nos resta ir a Norwood e solicitar a nossa parte. Ontem à noite, expliquei o meu ponto de vista a meu irmão Bartholomew, de forma que pelo menos seremos visitantes esperados, se não bem-vindos.

O sr. Thaddeus Sholto cessou de falar, mas não de se remexer no seu luxuoso canapé. Todos ficamos em silêncio, pensando no novo aspecto que o misterioso assunto havia tomado. Holmes foi o primeiro a se levantar.

— O senhor procedeu muito bem do princípio ao fim disse ele. — É possível que possamos lhe conceder uma pequena retribuição por ter trazido alguma luz sobre o que para o senhor continua obscuro. Mas, como a srta. Morstan ainda há pouco observou, já é tarde e convém irmos adiante sem demora.

O nosso novo amigo enrolou meticulosamente o tubo do seu narguilé e tirou de trás de uma cortina um comprido sobretudo com gola e punho de astracã, abotoado com ala- mares. Fechou-o até em cima, a despeito da noite abafada, e deu um toque final na sua indumentária com um boné de pele de coelho cujas abas lhe cobriam as orelhas, de forma que nada se via dele além do rosto móvel e comprido.

— Minha saúde é um pouco frágil — observou ele, ao conduzir-nos pelo corredor. — Sou obrigado a proceder como um enfermo.

A nossa carruagem estava à porta, e era evidente que o programa fora traçado de antemão, pois o cocheiro não nos fez esperar e logo colocou o cavalo a trote largo. Thaddeus Sholto conversava incessantemente, numa voz que dominava o matraquear das rodas.

— Bartholomew é um sujeito esperto — dizia ele. — Como pensam que descobriu onde o tesouro estava? Ele tinha chegado à conclusão de que devia estar dentro de casa e não no jardim. Estabeleceu, então, toda a área da casa em metros cúbicos, procedeu a rigorosas medições, de modo que não ficou por considerar um centímetro sequer. Entre outras coisas, verificou que a altura do edifício era de vinte e três metros, mas, ao somar o pé-direito de todas as divisões, inclusive o espaço que havia entre elas, do qual se certificou por meio de perfurações, não pôde encontrar mais que vinte e um e oitenta. Havia, por conseguinte, um metro e vinte que não aparecia. Só poderia estar no teto da casa. Abriu então um buraco no teto, de estuque e sarrafos, da sala mais alta, e lá, como previa, topou com novo sótão, que tinha sido isolado e era ignorado por todos. No meio dele, sobre duas vigas, encontrava-se a arca do tesouro. Tirou-a pelo buraco, e ela lá está. Bartholomew calcula o valor das jóias em não menos que meio milhão de esterlinos.

Ao ouvir essa soma gigantesca, nós três nos fitamos de olhos arregalados. A srta. Morstan, se conseguíssemos assegurar os seus direitos, iria se transformar de necessitada governanta na mais rica herdeira da Inglaterra. Decerto que era o momento de um amigo leal exultar com semelhante notícia; envergonho-me, no entanto, de dizer que, assenhoreandose de mim o egoísmo, senti um enorme peso no peito. Balbuciei algumas frouxas palavras de congratulação, e depois recostei-me abatido, com a cabeça pendida, surdo à tagarelice do nosso novo conhecido. Ele era, sem dúvida alguma, um hipocondríaco, pois eu notava, como em sonhos, que ele despejava uma série interminável de sintomas e implorava informações quanto à composição e ao efeito de inúmeras panacéias de curandeiros, algumas das quais trazia no bolso, dentro de um estojo de couro. Espero que não se lembre de nenhuma das respostas que lhe dei nessa noite. Holmes afirma que eu o preveni contra o grande perigo de tomar mais de duas gotas de óleo de rícino, ao passo que lhe recomendei a estricnina em grandes doses, como sedativo. Fosse como fosse, senti realmente um grande alívio quando o cupê se deteve com um solavanco e o cocheiro saltou para abrir a porta.

— Eis-nos em Pondicherry Lodge, srta. Morstan — disse o sr. Thaddeus Sholto, ajudando-a a descer.

[1] “O mau gosto leva ao crime.” (N. do T.)

Capítulo primeiro: A ciência da dedução § Capítulo segundo: Exposição do caso
Capítulo terceiro: À procura de uma solução § Capítulo quarto: A história do homem calvo
Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge § Capítulo sexto: Sherlock Holmes faz uma demonstração
Capítulo sétimo: O episódio do barril § Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street
Capítulo nono: Uma falha na seqüência § Capítulo décimo: O fim do ilhéu
Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra § Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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