Inspiração para ‘Jurassic Park’, livro de Arthur Conan Doyle se passa no Brasil

‘O Mundo Perdido’, recentemente lançado pela Todavia, imagina dinossauros na Amazônia

Condensado de O Estado de São Paulo, 14/07/2018
Por André Cáceres

Basta uma pesquisa rápida para um internauta desvelar todo o planeta diante de seus olhos. Com exceção de algumas bases militares, toda a Terra repousa a poucos cliques de distância com ferramentas como o Google Earth. Mas nem sempre foi assim. Desde as grandes navegações, no século 15, às aventuras do capitão James Cook (1728-1779), o mundo estava repleto de lugares desconhecidos. A expressão em latim “terra incognita” era usada pelos cartógrafos antigos para descrever locais ainda por explorar. No fim do século 19, tudo estava praticamente mapeado, mas a busca por novas regiões deu origem a todo um filão literário que vem sendo resgatado para os leitores brasileiros.

RORAI120

Monte Roraima, platô que inspirou Sir Arthir Conan Doyle a fazer a terra de Maple White em ‘O Mundo Perdido’ Foto: Paulo Liebert/EstadãoInsira uma legenda

Em um dos principais livros dessa leva, O Mundo Perdido, de Sir Arthur Conan Doyle, publicado pela Todavia, o jornalista Edward Malone, do Daily Gazette, acompanha uma jornada ao coração da Amazônia em busca de um platô que abrigaria dinossauros vivos, segundo o zoólogo desacreditado George Challenger. O Zeitgeist da época é expresso por McArdle, editor de Malone que o envia na aventura: “Os grandes espaços em branco do mapa estão todos sendo preenchidos, e não há mais lugar para o romance em parte alguma.” Ou, como Alberto Manguel e Gianni Guadalupi constatam no prefácio à edição lusa do Dicionário de Lugares Imaginários: “Tornamos impossível zarpar rumo ao desconhecido, a não ser sob vigilância humana (…) Mas ainda havia a cartografia da imaginação. A nossa geografia imaginária é infinitamente mais vasta do que a do mundo material.”

No livro de Conan Doyle, Challenger alega ter visto esses dinossauros brasileiros, mas não conseguiu trazer provas de sua existência. A elevação, batizada Terra de Maple White e inspirada no Monte Roraima, teria ficado isolada por milhões de anos, mantendo o equilíbrio ecológico dos períodos jurássico e mesozoico, e evitando a extinção dos dinossauros. No entanto, seus pares cientistas consideram as alegações absurdas “como um shakespeariano confrontado por um baconiano, ou um astrônomo atacado pelos fanáticos da terra plana”.

As imprecisões sobre o Brasil, sua geografia e idioma não mancham a obra, mas algumas idiossincrasias saltam aos olhos do leitor contemporâneo, embora Conan Doyle pudesse ser considerado esclarecido para a época. Como de praxe nas histórias desse tipo, os exploradores são todos homens brancos que usam criados negros e/ou indígenas (no caso, ambos), e as raras personagens femininas existem apenas como interesses amorosos – Malone pede ao seu editor que o envie em uma aventura porque quer conquistar a bela Gladys, cujo nome ele dá à lagoa central de Maple White.

Conan Doyle baseou seus relatos fantásticos em acontecimentos pretensamente reais. No dia 11 de janeiro de 1911, o New York Herald publicou uma matéria sobre feras pré-históricas que supostamente habitariam a floresta amazônica. Durante a chamada Guerra dos Ossos (1872-1892), movida pela rivalidade entre os paleontologistas Othniel Charles Marsh e Edward Drinker Cope, o interesse do público por dinossauros cresceu e as descobertas de fósseis se tornaram mais frequentes. Não é estranho, portanto, que Doyle, já consagrado pelos romances policiais de Sherlock Holmes, quisesse explorar esses mistérios em O Mundo Perdido, publicado originalmente em 1912.

Já existiam criaturas pré-históricas em romances e contos de Jack London, Ambrose Bierce, Frank Mackenzie Savile e H.G. Wells, como Samir Machado de Machado nota no prefácio da obra. Mas as descrições vívidas que Doyle faz dos dinossauros inspiraram fortemente Edgar Rice Burroughs, em At the Earth’s Core (1914); Érico Verissimo, na sua Viagem à Aurora do Mundo (1939); e Michael Crichton, em Jurassic Park (1990, recentemente reeditado pela Aleph).

À época, Doyle teve contato com o Manuscrito 512. Esse documento de 1754 descrevia uma cidade perdida na Amazônia e atiçou a curiosidade de exploradores britânicos como Sir Richard Francis Burton (1821-1890) e Percy Fawcett (1867-1925), com quem o escritor se correspondeu e que morreu desaparecido tentando encontrar uma civilização misteriosa no Mato Grosso. Esse manuscrito brasileiro pode ter influenciado As Minas do Rei Salomão (1886), de Sir Henry Rider Haggard, publicado recentemente pela Via Leitura.

Tido como um dos fundadores dessa literatura de exploração, a obra relata uma jornada ao interior da África pelos olhos do caçador de elefantes Allan Quatermain, que auxilia um nobre a encontrar seu irmão perdido nas terras de Kukuanalândia, para além de um deserto quase intransponível, onde o lendário rei Salomão (1050-931 a.C) havia encontrado diamantes. Foi Haggard quem inspirou o tom impressionista, com relatos em primeira pessoa, descrições de paisagens exuberantes e forma epistolar dos livros desse gênero.

As “viagens extraordinárias” de Júlio Verne à Lua, ao fundo do mar, ou ao redor do planeta também seguem nessa tradição, e vêm sendo reeditadas com frequência no Brasil. Somente em 2018, a Nova Fronteira publicou um box com três aventuras condensadas do autor francês; a Via Leitura lançou recentemente Cinco Dias em um Balão, em que, a exemplo de Haggard, Verne narra uma viagem à África (mas, diferente do autor britânico, ele nunca pôs os pés no berço da humanidade); e a Zahar publicou sua Viagem ao Centro da Terra, obra de 1864 em que Verne imagina seres pré-históricos sendo descobertos por exploradores no núcleo oco do mundo, inspiração para Burroughs.

“É muito antiga a necessidade de inventar países e depois dizer como o autor os encontrou”, relembram Manguel e Guadalupi. “Escrita em meados do terceiro milênio a. C., a Epopeia de Gilgamesh (ou pelo menos a sua segunda metade) é a crônica da viagem de um rei ao Reino dos Mortos. A Odisseia, composta no século 8 a. C., é o relato de uma corrida de obstáculos que alcança, decorridos muitos anos, a meta ansiada.” Essas e outras terras fictícias que povoam o imaginário da literatura, afirmam eles, não são produto de mero escapismo. “Atlântida, a Ilha Misteriosa, a comunidade distante de Utopia e a Cidade das Esmeraldas de Oz são lugares que visitamos em pensamento mas não na realidade, embora sejam necessários para aquilo a que chamamos a condição humana.”

Hoje esse resgate dos clássicos da literatura de exploração demonstra que essas obras ganharam relevância com o tempo. Pode não haver mais uma “terra incognita” para se desbravar, mas, no século 21, com ilhas sendo devoradas pelo aumento do nível dos oceanos, geleiras desaparecendo, traçados litorâneos modificadas pelo avanço das águas e florestas inteiras sendo desmatadas, até os mapas mais perfeitos serão obsoletos sem um pouco de imaginação.

Anúncios
Publicado em Jornais, Livros | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Quando Sherlock Holmes derrotou seu criador

Dois novos livros recordam a relação do escritor escocês com um personagem mais poderoso que seu autor Conan Doyle

Condensado de El País, 09/06/2018
Por Guillermo Altares

el_pais_09_06_18

Manuscritos de Arthur Conan Doyle exibidos na casa de leilões Christie’s, em Londres. FIONA HANSON GETTY

Sherlock Holmes nasceu porque um médico de cabeceira escocês, que mal ganhava para acender o gás, vivia com o consultório vazio. Aquele doutor se chamava Arthur Conan Doyle e tinha encontrado um modelo para o seu detetive em um de seus professores da Faculdade, Joseph Bell. Poucos personagens tiveram um impacto tão forte como Holmes sobre a sociedade que os viu nascer, e poucos conseguiram prolongar sua sombra de forma tão profunda sobre o futuro.

De fato, quando seu autor, que queria seguir outros caminhos literários, teve a bizarra ideia de matá-lo nas cataratas de Reichenbach, não teve outro remédio senão ressuscitá-lo pouco tempo depois, por causa da fúria de seus leitores. O próprio Conan Doyle escreve, num artigo recuperado agora dentro do volume que reúne seus textos de não ficção, Meus Livros. Ensaios Sobre Leitura e Escrita: “Sherlock Holmes é para muita gente qualquer coisa menos um personagem de ficção, como demonstram todas as cartas que recebi dirigidas a ele e nas quais formulam pedidos”. Um banco situado no famoso endereço da Baker Street 221B – que não existia na época em que o personagem foi criado, porque a rua era mais curta – teve que contratar um funcionário só para responder a todas as cartas dirigidas ao detetive.

O jornalista norte-americano Michael Sims reconstrói, em seu estupendo livro Arthur and Sherlock, a criação do detetive e de seu companheiro John Watson, em 1887. O surgimento de um personagem tão durável sempre tem um componente casual, inclusive em seu nome – Doyle pensou em chamá-lo Sherrington Hope –, embora também tenha algo de inevitável. Sims revela a fascinação do escritor por seu velho professor de medicina, que impressionava seus alunos com sua capacidade dedutiva, mas seu personagem também reflete a época que lhe coube viver, o enorme interesse pela ciência que estava mudando por completo o mundo durante a Revolução Industrial, assim como a invenção do romance policial por parte de Poe, entre outros autores. O triunfo de Sherlock Holmes reflete ainda a profunda mudança que o mundo editorial viveu em um século e meio: o personagem só se firmou quando começou a ser editado pela revista Strand, não nos livros (trata-se do equivalente às séries de TV para o século XIX).

Ao final, o estudo de Sims representa uma reflexão sobre o poder e o mistério dos personagens de ficção. Conan Doyle foi, sem dúvida alguma, um escritor de enorme talento, mas sempre inferior ao de sua maior criação. De fato, o autor do detetive mais preparado do mundo chegou a acreditar em fadas. Não é estranho que, em um momento dado, tenha decidido matá-lo para seguir em frente. Sua derrota demonstra até que ponto seu personagem foi sempre muito mais importante que ele.

 

Publicado em Jornais | Marcado com , | Deixe um comentário

Manuscrito de famosa história de Sherlock Holmes vai à leilão

Condensado de The Telegraph, 30/03/2018
Por David Millward

 

Danc1_Teleg_30_03_18

Manuscrito de ‘A Aventura dos Dançarinos’, de Sir Arthur Conan Doyle, tem expectativa de arrecadar mais de USD $500.000. CREDITO: HERITAGE AUCTIONS/HA.COM

O manuscrito de uma das mais famosas histórias de Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle, “Os Dançarinos”, será leiloada em Dallas, Texas, no próximo mês.

A história foi escrita em 1903 para a Strand Magazine, uma década depois que as duas primeiras novelas de Holmes foram publicados e receberam entusiasmadas críticas.

Trata-se de uma das treze histórias publicadas em “O Retorno de Sherlock Holmes” e uma das duas únicas em que seus clientes morrem depois de procurar a ajuda do detetive.

Escrito à mão, o texto inclui emendas feitas por Conan Doyle, bem como o texto original, explicando como o enredo se desenvolveu.

O manuscrito também inclui os desenhos originais de Doyle para a cifra dos homens dançantes, uma idéia que chegou ao autor depois de ficar no Hill House Hotel, em Norfolk.

Danc2_Teleg_30_03_18

Detalhe do manuscrito e os desenhos originais. CREDITO: HERITAGE AUCTIONS/HA.COM

O manuscrito deve render mais de USD $500.000 (£ 350.000) quando colocado à venda pela Heritage Auctions em 18 de abril.

De acordo com Randall Stock, um conhecido especialista em Holmes, a ideia surgiu quando Doyle assinou um livro de autógrafos de uma mulher que continha desenhos de duas crianças, Gilbert John Cubitt e Edith Alice Cubitt.

Ele usa o sobrenome das crianças para o cliente de Holmes na história.

Danc3_Teleg_30_03_18

Aparentemente, a ideia que originou a história surgiu quando Conan Doyle assinou o livro de autógrafos de uma mulher que continha tais desenhos. CREDITO: HERITAGE AUCTIONS/HA.COM

O enredo gira em torno de uma série de mensagens contendo os desenhos que chegam à casa de Hilton Cubitt e de sua esposa americana, Elsie Patrick.

Enquanto Holmes se esforça para decifrar o código e determinar a origem das notas, tanto Cubitt quanto Patrick são alvejados – Cubitt fatalmente.

Doyle doou o manuscrito para um leilão de 1918 em nome da Cruz Vermelha. Foi vendido pela última vez há noventa anos, em outro leilão.

Danc4_Teleg_30_03_18

O manuscrito inclui emendas feitas por Conan Doyle, bem como o texto original.
CREDITO: HERITAGE AUCTIONS/HA.COM

O atual proprietário recebeu o manuscrito de seu pai, um vendedor de livros no Texas.

O manuscrito estará em exibição nos escritórios da Heritage Auctions, em Nova York, localizados na 445 Park Avenue, de 9 de abril a 12 de abril.

A história de “Os Dançarinos” inspirou o segundo episódio da primeira temporada da série da BBC ‘Sherlock’, intitulado “The Blind Banker”.

Publicado em Jornais | Marcado com , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Em Londres, investigando Sherlock Holmes

Condensado de O Estado de SP, 11/04/2017
Por Luiz Fernando Toledo

Você pode nem estar procurando, mas Sherlock Holmes estará em algum lugar no centro da capital inglesa

EstSP_11_04_17

Sherlock Holmes e seus objetos tão marcantes quanto seu nome Foto: Visit Britain

Você pode nem estar procurando, mas Sherlock Holmes estará em algum lugar no centro de Londres. São tantas as referências aos livros, séries e filmes da saga que fica difícil ignorar as pistas. Um bom começo é aderir ao tour à pé ( bit.ly/sherlockape; £12 ou R$ 46), que começa em um dos pontos mais movimentados e agitados de Londres, Picadilly Circus. Não será difícil encontrar o guia, que terá o símbolo máximo do detetive na cabeça: o chapéu.

É onde hoje está o Lyceum Theatre, no centro nobre da cidade, que a primeira peça baseada nos romances de Arthur Conan Doyle foi apresentada. A adaptação do livro, de William Gillette, traz uma surpresa: seu elenco tinha a participação de um ator de 13 anos cujo nome viria a ser conhecido mundialmente: Charlie Chaplin. A bela arquitetura barroca monumental não é a única coisa para se ver, mas também seus espetáculos – no momento, está em cartaz o musical O Rei Leão.

Ter assistido à série do detetive feita pela BBC (e disponível no Netflix) deixará o roteiro mais interessante. Na Trafalgar Square, onde está a National Gallery, você verá exatamente o mesmo cenário em que os heróis Sherlock e Dr. Watson caminham em busca de um pichador que possa ajudá-los a resolver um mistério. Assista ao episódio ( The Blind Banker) depois de passar por lá: a cena não teve figurantes contratados, e as pessoas olham curiosas para as câmeras.

A Somerset House, palácio com vista para o Rio Tâmisa, é um dos pontos mais utilizados por cineastas. Já foi cenário para filmes de James Bond (como O Amanhã Nunca Morre) e Jackie Chan ( Bater ou Correr em Londres) e, claro, para uma das versões cinematográficas de Sherlock Holmes, sob direção de Guy Ritchie.

EstSP_11_04_17_2

O Sherlock Holmes Pub tem bar e restaurante Foto: Luiz Fernando Toledo/Estadão

Pub. Uma das torturas do tour é passar pelo Sherlock Holmes Pub (10 Northumberland St.) e não entrar. Mas não se preocupe: do ponto final do passeio, a Somerset House, é um pulo. O local é dividido em dois andares: no térreo está o bar e, acima, um restaurante. O espaço é decorado com páginas de revistas e cartazes com tudo sobre o detetive. Só não faça como este repórter, que fez uma fila se formar ao observar os adereços nas escadas.

Na parte de cima há uma sala que simula o que seria o escritório de Holmes, mas não é possível se aproximar. Fique tranquilo: você terá a oportunidade no museu. Aproveite para pedir o clássico fish and chips (peixe com fritas), £ 14,45 (R$ 56) em uma porção bem servida. Nenhum fã que se preze pode partir sem visitar a casa onde Sherlock viveu entre 1881 e 1904, segundo os contos de Arthur Conan Doyle. Ok, a Baker Street não é a mesma e tem até McDonald’s, mas o charme está lá.

Esqueça as lojas caça-turistas e parta direto para o número que você já sabe: 221B.

Ali funciona um museu ( sherlock-holmes.co.uk ) dedicado à saga do detetive – a fila é grande e a espera pode levar meia hora. Compre os ingressos (£ 15; R$ 58) na lojinha, mas cuidado. O local pode ser um pesadelo de gastos, com praticamente tudo ligado ao detetive: livros, bonecos, chapéus, miniaturas, pelúcia, DVDs e pôsteres.

Não fique decepcionado, mas Holmes nunca morou no local – nem existiu, embora há quem diga o contrário. O que se sabe é que, antes de abrigar o museu, nos anos 1930, o endereço era a sede do banco Abbey National. E, embora resolver mistérios não fosse exatamente a habilidade dos proprietários, eles receberam, por muitos anos, cartas endereçadas ao detetive.

Na entrada, o próprio Dr. Watson recepciona os visitantes e aceita, de bom grado, posar para fotos. A visita não dura mais que meia hora: o grande barato é ver objetos e cenas feitas com bonecos que remetem aos livros. Uma equipe também está de prontidão para tirar dúvidas, embora não haja muita explicação para os “não iniciados” na saga. Não saia sem pegar o kit cachimbo-chapéu e posar em frente à lareira para uma foto – dizer o clichê “elementar, meu caro Watson” é opcional.

DICAS

Internet: dependendo do tempo que você ficar na Inglaterra, invista em um chip de celular (peça por um SIM card). Paguei £40 (R$ 155) para ter acesso à internet rápida e sem limites– inclusive para assistir vídeos.

Transporte: Ter um Oyster Card, o Bilhete Único londrino, é fundamental para se locomover na cidade (passe na catraca na entrada e na saída). Compre nos centros de visitantes; mais em bit.ly/oysterlondres.

 

Publicado em Jornais, Viagem & Turismo | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

Sua memória funciona mais como a de Sherlock Holmes do que você imagina

Condensado de UOL, 19/12/2016

uol_19_12_16

Os atores Benedict Cumberbatch e Martin Freeman em cena da série inglesa “Sherlock”

Você já assistiu o seriado do famoso detetive Sherlock Holmes? Na série Sherlock, o personagem tem um “palácio da mente”, um catálogo mental altamente organizado de quase todas suas memórias.

Nós, meros mortais da vida real, não conseguimos nos lembrar da vida toda como Holmes, mas cientistas das Universidades de Princeton e Stanford, nos EUA, afirmam que nossas habilidades de armazenar lembranças e recordar podem ser eficientes e mais parecidas com as dele do que se imaginava.

A descoberta pode ajudar a encontrar sinais de alerta precoce da perda de memória e auxiliar no tratamento de doenças como Alzheimer. O estudo foi publicado na Nature Neuroscience.

Pesquisas anteriores provaram que as mesmas regiões do cérebro são ativadas em duas situações: quando vivenciamos um evento pela primeira vez e quando somos questionados para lembrarmos algo. O que os cientistas não sabiam era se todos os seres humanos armazenavam e as mesmas memórias da mesma maneira, ou se cada cérebro se lembrava de modo diferente.

Para desvendar esse mistério, eles recorreram ao detetive Holmes.
Um grupo de psicólogos colocou 22 voluntários em uma máquina de ressonância magnética para acompanhar as atividades cerebrais.

Os cientistas fizeram os voluntários assistirem 48 minutos do seriado Sherlock (mais precisamente o primeiro episódio, “A Study in Pink”). Assim que o tempo acabou, os participantes tinham que contar o que podiam sobre a série. Imagens dos cérebros foram gravadas em ambos momentos.

Os pesquisadores então analisaram a atividade cerebral dos telespectadores enquanto assistiam à série e quando se lembravam dela. Os padrões cerebrais eram tão semelhantes que os cientistas conseguiam identificar com precisão quais cenas os participantes estavam descrevendo sem precisar ouví-los, só comparando as atividades cerebrais.

“Mostramos que há um padrão cerebral distinto, como uma impressão digital, para cada cena assistida e sua memória”, disse Janice Chen, líder do grupo de pesquisa.

Depois da primeira fase, a equipe juntou os resultados de todos os participantes e criou uma média do que os cérebros mostraram enquanto assistiam às cenas. Em seguida, eles relacionaram a média com as respostas das ressonâncias individuais de quando os voluntários se lembraram da série.

A atividade cerebral de todos os participantes ao recordar foi parecida com a média do grupo ao ver a série pela primeira vez.

Resumindo? O resultado sugere que quando os seres humanos experimentam os mesmos eventos, seus cérebros organizam as memórias de maneira similar, em nosso “palácio da mente”.

Além disso, a maioria dos cientistas pensava que as memórias ficavam guardadas nas regiões cerebrais de “ordem inferior”, o que teríamos em comum com a maioria dos vertebrados. Mas os padrões cerebrais do estudo mostram que as lembranças foram exclusivamente encontradas na “ordem superior do cérebro”.

As descobertas farão com que pesquisadores cognitivos repensem a maneira como estudam as memórias.

“Achamos que nossas lembranças são únicas, mas há muito em comum entre nós, em como vemos e nos lembramos do mundo”

Janice Chen

Com a técnica de “rastreamento de memórias” usada na pesquisa, cientistas que trabalham com doenças neurodegenerativas relacionadas à memória, como o Alzheimer, podem identificar sinais de alerta precoces de esquecimento ou desenvolver marcadores mais precisos para perda de memória.

Agora sabemos que nossas memórias têm alguma estrutura organizacional em comum. A descoberta pode trazer certa frustração. Nós gostamos de pensar em nossos cérebros e lembranças como únicos, só nosso, mas não é bem assim.

Publicado em Uncategorized | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Review Sherlock Holmes: The Devil’s Daughter

Condensado de TechTudo, 15/07/2016
Por André Luiz de Mello Pereira

O detetive mais famoso do mundo retorna ao mundo dos games para resolver casos e um mistério envolvendo sua filha

Sherlock Holmes: The Devil’s Daughter é o novo game estrelado pelo detetive criado por Arthur Conan Doyle e coloca diferentes casos para o jogador resolver na era Vitoriana. Será que após o ótimo Sherlock Holmes: Crimes & Punishments, a Frogwares conseguiu acertar a mão mais uma vez ou acabou se perdendo? Saiba a resposta no review completo do game.

Um novo começo

The Devil’s Daughter é o oitavo jogo de Sherlock Holmes produzido pela Frogware e, de certa forma, age como uma espécie de reboot da série. Com um novo visual para Sherlock Holmes e Dr. Watson, o game mantém o mesmo estilo de investigação do último jogo, Sherlock Holmes: Crimes & Punishment. O que muda aqui é um foco, muitas vezes desnecessário, em momentos de ação.

sherlock-holmes-the-devils-daughter_01

Sherlock e Dr. Watson em busca da verdade em Sherlock Holmes: The Devil’s Daughter (Foto: Divulgação/ Frogware)

Sherlock está mais novo que no título anterior e ainda não chegou no ápice de sua fama como maior detetive do mundo. A trama que envolve a filha do personagem costura toda a história do jogo, junto com a necessidade de resolver diferentes casos, que vão de assassinatos até roubos de relíquias.

A trama principal, que aparece durante os casos, ajuda a encaminhar o game e o torna mais coeso. Assim, não há apenas missões (divertidas) que você resolve e que, de repente, levam ao final da aventura.

Elementar, meu caro Watson

Os casos de The Devil’s Daughter são bem divertidos de resolver e seguem a mesma fórmula abordada em Crimes & Punishments. O game basicamente pede para que você encontre todas as pistas disponíveis, junte tudo e aponte para um possível culpado.

Como acontecia no game anterior, o jogador tem acesso à mente quase super-humana de Sherlock, que surge ao investigar testemunhas e suspeitos, e a “visão de detetive”, que destaca elementos do cenário.

sherlock-holmes-the-devils-daughter_02

Watson e Sherlock e seus visuais de atores de Hollywood (Foto: Divulgação/Frogware)

Apesar de parecer um tanto sem graça, a maneira como o jogo foi escrito captura a atenção do jogador, que se envolve a ponto de não largar enquanto não resolver aquele mistério. As mecânicas usadas para a solução dos casos também são divertidas e fazem com que você se sinta um verdadeiro detetive ao descobrir cada novo detalhe sobre o acontecido.

Tentando ser diferente, mas igual a todo mundo

Sherlock Holmes: The Devil’s Daughter traz melhorias gráficas. Os personagens estão mais jovens – e até com aparência que lembra os atores de Hollywood –, mas é fácil perceber algumas falhas, como quedas na taxa de frames. Isso não seria um problema se o título tivesse se mantido como um simples jogo de detetive.

The Devil’s Daughter se mostra, em vários momentos, com uma vontade de inovar, de apresentar novidades ao jogador. Isso é louvável, já que a Frogwares poderia ter feito um jogo idêntico ao anterior, apenas com novos casos.

sherlock-holmes-the-devils-daughter_03

A investigação dos casos é o ponto alto do game (Foto: Divulgação/Frogware)

O problema está em como esta inovação foi abordada. Mais de uma vez, você encontrará novas mecânicas que são abandonadas na mesma rapidez que surgiram. Nada tem tempo de se desenvolver o suficiente para se destacar.

Outro elemento – que pode ser considerado como o ponto mais baixo do game – é a tentativa de transformá-lo em um jogo de ação. Seja na quantidade absurda de quick time events ou em momentos em que você controla um personagem, apenas para passar raiva pelos controles serem travados, The Devil’s Daughter parece se perder um pouco.

sherlock-holmes-the-devils-daughter_04

Os momentos de ação parecem deslocados dentro do jogo (Foto: Divulgação/Frogware)

A ideia de incluir ação em um jogo de investigação é interessante, mas a maneira como a Frogware fez isso deixou muito a desejar.

Conclusão

Sherlock Holmes: The Devil’s Daughter é um jogo que ainda vai agradar aos fãs do detetive e aqueles que realmente gostaram de Crimes & Punishments. O game não é perfeito, traz alguns erros bobos, mas ainda consegue divertir e capturar a atenção do jogador até o final.

Trailer

 

Publicado em Jogos, Uncategorized | Marcado com , , , | Deixe um comentário

7 livros com participações especiais de Sherlock Holmes

Condensado de Revista Galileu, 07/07/2016

Para os fãs, os 56 contos de Arthur Conan Doyle não são o suficiente

Em 7 de julho de 1930 morria, aos 71 anos, o médico e escritor escocês Arthur Conan Doyle. Sua extensa coleção de ensaios, poemas e romances históricos foi ofuscada na história da literatura por sua maior criação: o detetive Sherlock Holmes.

Foram, ao todo, 56 contos e 4 romances protagonizando o personagem. Doyle tinha sentimentos ambíguos em relação à sua própria criação, e em muitos momentos considerou parar de escrever histórias sobre o detetive para se concentrar em outros gêneros. A pressão das editores e o sucesso comercial, porém, fizeram Sherlock acompanhar a vida de seu autor até o final. Os últimos contos com o personagem foram publicados em 1927, apenas três anos antes de sua morte.

Para os fãs, não foi o suficiente. Sherlock Holmes conquistou corações e mentes, e se tornou um visitante (e eventual protagonista) de obras assinadas por incontáveis fãs do autor escocês. Um fenômeno das fanfictions. A GALILEU listou sete livros que não são de Doyle, mas que tem o detetive mais famoso da história no elenco.

O Xangô de Baker Street, por Jô Soares

Em um dos livros mais famosos do apresentador brasileiro, O Xangô de Baker Street, o detetive britânico é chamado pelo imperador D. Pedro II para solucionar um mistério no Brasil das últimas décadas do século 19: um valioso violino Stradivarius dado pela atriz francesa Sarah Bernhardt à baronesa Maria Luíza desapareceu. Ao mesmo tempo, uma prostituta é brutalmente assassinada, e é encontrada pela polícia com as orelhas decepadas e uma corda do instrumento sobre o corpo. Não bastasse a complexidade do caso, Holmes ainda sofre com o calor tropical e problemas intestinais causados por feijoadas e vatapás.

Uma Solução Sete por Cento, por Nicholas Meyer

Nicholas Meyer é mais famoso por ter dirigido dois filmes da franquia Star Trek. Sua obra literária, porém, está bem longe das estrelas. Sua inspiração, no início da carreira, veio de 100% de Baker Street.

O título de seu primeiro livro, de 1974, é uma referência a um dos romances de Doyle, O Signo dos Quatro, que começa e termina com Holmes injetando uma solução de cocaína na concentração de 7%.

Na história, narrada como um relato do Dr. Watson, Sherlock vai à Viena, na Áustria, buscar ajuda de um famoso psicólogo, com que fará reabilitação para se livrar do vício na droga. Chegando lá, o especialista é ninguém menos que Sigmund Freud, o pai da psicanálise. O detetive ainda aproveita para resolver um caso que atrasa a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Nada mal para uma só viagem.

Sherlock Holmes vs. Dracula, por Loren D. Estleman

Estleman é um jornalista americano que ainda usa uma máquina de escrever e um prolífico autor de livros Western, mas também fez três histórias estrelando o detetive britânico. Na principal delas, de 1979, o capitão de um navio é encontrado morto em um porto da Inglaterra, e todo seu sangue foi drenado. O responsável é Conde Drácula, que será investigado por Holmes. No caminho, o detetive topa com o caçador de monstros Van Helsing. Imperdível.

Novas Aventuras Científicas de Sherlock Holmes, por Colin Bruce

Se você está com preguiça de estudar matemática e preferiu enfiar a cara em um dos livros de Sir Arthur Conan Doyle, o físico Colin Bruce oferece um meio termo tentador que irá suprir suas necessidades acadêmicas. Nas novas aventuras do detetive inglês, casos ardilosos envolvendo empresários, jogadores e vigaristas são desvendados por meio de conceitos da probabilidade, da estatística e da teoria dos jogos. Tudo explicado número por número.

The Mammoth Book of New Sherlock Holmes Adventures, por Vários Autores

Em tradução livre, O Grande Livro de Novas Aventuras de Sherlock Homes, ainda sem edição em português. Essa é uma compilação para viciados em crise de abstinência. Stephen Baxter, H. R. F. Keating, Michael Moorcock, Amy Myers e outros escritores de romances policiais e ficção científica assinam histórias inéditas de Holmes para quem já zerou as 60 narrativas deixadas por Sir Arthur Conan Doyle.

Sherlock Holmes: Biografia não autorizada, por Nick Renninson

Após encarar Drácula, se consultar com Freud e passar mal comendo vatapá, nada mais justo do que dar a Holmes sua própria biografia. O livro de Nick Renninson, publicado em 2006, mistura, com a maior naturalidade possível, episódios reais da história da Inglaterra com os incontáveis casos solucionados pelo detetive. Na mistura, não entra apenas a obra canônica de Doyle, mas várias das incontáveis participações de Holmes em outras obras que são citadas aqui. Depois da leitura, fica até difícil de acreditar que ele não existiu.

Sherlock Holmes no Japão, por Vasudev Murphy

O livro tenta preencher uma lacuna da cronologia oficial de Holmes, enviando-o à terra do sol nascente. O ano é 1893, e o detetive busca conter o maligno professor Moriarty, que tem planos de dominar o mundo. A obra, que faz uma boa ambientação da vida nos países asiáticos no século 19, foi, em geral, bem recebida, mas desagradou leitores mais conservadores por distorcer muitos elementos das histórias originais.

Publicado em Livros | Marcado com , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário