O escriturário da corretagem

Arthur Conan Doyle

O escriturário da corretagem

Título original: The Stockbroker’s Clerk
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Março de 1893 e com 7 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Stockbroker’s Clerk publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Logo após meu casamento, comprei uma clínica no distrito de Paddington. O velho sr. Farquahar, que a vendeu a mim, tivera em outros tempos uma excelente clínica. Porém, a idade e uma doença idêntica à de São Vito emagreceram-no muito. O público, como é natural, baseia-se no princípio segundo o qual quem cura os outros deve curar-se a si próprio, e parece considerar com desconfiança os dons curativos de alguém cujo caso pessoal escapa ao alcance de seus remédios. Portanto, à medida que meu predecessor enfraquecia, sua clientela diminuía. Quando a comprei, baixara de mil e duzentos para pouco mais de trezentos clientes ao ano. Entretanto, eu confiava em minha juventude e energia, e estava convencido de que, em poucos anos, o negócio estaria tão florescente como antes.

Por três meses depois de assumir a clínica, conservei-me apegado ao trabalho. Via, portanto, muito pouco meu amigo Sherlock Holmes, pois estava ocupado demais para visitar a Baker Street, e raras vezes saía para qualquer outra parte, exceto no desempenho de minha profissão. Por isso, fiquei surpreso certa manhã de junho, quando, sentado, lia o British Medical Journal, depois da refeição matutina, ao ouvir o toque da campainha, seguido do som alto e estridente da voz de meu companheiro.

— Ah! Meu caro Watson — disse ele, entrando na sala a passos largos. — Estou muito contente de vê-lo. Espero que a sra. Watson se tenha curado de todos os pequenos desequilíbrios relacionados com nossa aventura de O signo dos quatro.

— Muito obrigado, estamos ambos muito bem — respondi, apertando-lhe calorosamente a mão.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Espero, também — continuou ele, sentando-se na cadeira de balanço —, que os cuidados com a clínica não lhe tenham obliterado completamente o interesse que costumava ter pêlos nossos pequenos problemas dedutivos.

— Pelo contrário — respondi —, ainda a noite passada estive examinando todas as minhas velhas notas e classificando alguns de nossos resultados.

— Espero que não considere sua coleção encerrada.

— De forma nenhuma. Não desejaria outra coisa senão mais algumas das tais experiências.

— Hoje, por exemplo?

— Sim, hoje mesmo, se quiser.

— E mesmo num lugar distante, como Birmingham?

— Certamente, se o desejar.

— E a clínica?

— Também atendo a do meu vizinho, quando ele sai! E ele está sempre pronto a pagar-me a dívida.

— Ah! Não podia ser melhor — disse Holmes, encostando-se para trás e olhando vivamente para mim por baixo de suas pálpebras semicerradas. — Vejo que não tem passado bem ultimamente. Os resfriados de verão são sempre difíceis.

— Fiquei em casa três dias na semana passada, por causa de um grande resfriado. Mas supunha que já o houvesse eliminado.

— Assim é. Pois parece-me admiravelmente robusto.

— Como o sabe então?

— Você conhece meus métodos.

— Então deduziu-o?

— Certamente.

— E como?

— Pelos seus chinelos.

Olhei para os chinelos de couro que tinha nos pés.

— Que diabo! — comecei, mas Holmes respondeu às minhas perguntas ainda antes que eu as formulasse.

— Seus chinelos são novos — disse ele. — Não têm mais de algumas semanas. A sola que neste momento me mostra está levemente queimada. A princípio, pensei que tivesse sido molhada e se chamuscara ao secar. Mas perto do salto há um pequeno círculo de papel, com os hieróglifos do fabricante. A umidade o teria removido. Portanto, você esteve sentado com os pés estendidos para o fogo, coisa que uma pessoa não faria nem mesmo num mês de junho tão úmido como este, se estivesse com perfeita saúde.

Uma vez explicada, a coisa pareceu-me a própria simplicidade, como todo raciocínio de Holmes. Ele leu meu pensamento e seu sorriso teve um laivo de amargura.

— Receio que traia a mim próprio quando explico — disse ele. — Os resultados sem causa são muito mais impressionantes. Então, está pronto a ir comigo a Birmingham?

— Certamente. Qual é o assunto?

— Contar-lhe-ei no trem. Meu cliente está lá fora num carro de quatro rodas. Pode vir já?

— Só um instante.

Rabisquei uma nota para meu vizinho, precipitei-me escada acima para explicar o caso a minha mulher e juntei-me a Holmes no degrau da porta.

— Seu vizinho é médico? — disse ele, indicando com a cabeça a placa de bronze.

— É. Comprou uma clínica, como eu.

— Um velho estabelecimento?

— Exatamente como o meu. Ambas as clínicas têm funcionado aqui desde que foram construídas as casas.

— Então apanhou a melhor das duas.

— Penso que sim. Mas como sabe?

— Pelos degraus, meu rapaz. Os seus estão gastos sete centímetros mais que os dele. Mas aquele cavalheiro no carro é meu cliente, o sr. Hall Pycroft. Permita-me que o apresente. Chicoteie seus cavalos, cocheiro; estamos em cima da hora para apanhar o trem.

O homem com quem deparei era um jovem de bela constituição, tez fresca, fisionomia franca e honesta, e um ligeiro bigode amarelo e encrespado. Usava uma luzidia cartola e um traje de um preto sóbrio que o fazia parecer o que era — um jovem da City, da chamada classe cockney, a qual fornece nossos regimentos voluntários de craques e da qual saem atletas e desportistas mais exímios do que de qualquer outro agrupamento destas ilhas. Seu rosto redondo e corado era naturalmente cheio de jovialidade, mas os cantos da boca pareceram-me caídos, com uma expressão de tristeza meio cômica. Entretanto, só quando estávamos todos no vagão de primeira classe, a caminho de Birmingham, pude conhecer a dificuldade que o obrigara a procurar Sherlock Holmes.

— Teremos setenta minutos de viagem — observou Holmes. — Quero, sr. Pycroft, que conte a meu amigo sua interessante experiência, exatamente como a contou a mim, ou, se possível, com mais pormenores. Ser-me-á útil ouvir outra vez a sucessão dos acontecimentos. É um caso, Watson, que pode ter muita ou pouca importância, mas que pelo menos apresenta esses traços raros, característicos e outrés [1] que são tão caros a você como a mim. Agora, sr. Pycroft, não o interromperei mais.

Nosso jovem companheiro olhou para mim com um piscar de olhos.

— O pior da história — disse ele — é que me apresento como o mais abominável idiota. Entretanto, pode ser que tudo corra bem, e não vejo como poderia ter agido de outra maneira. Mas, se tivesse perdido o emprego sem nenhuma compensação, sentiria que fora um palerma. Não sou muito bom para contar histórias, sr. Watson, mas é mais ou menos o seguinte:

“Eu estava habituado a meu emprego na Coxon & Woodhouse, em Draper’s Gardens, mas a firma viu-se abalada, no começo da primavera, por causa do empréstimo venezuelano, como sem dúvida se lembra, e deu-se um terrível colapso. Eu trabalhara lá cinco anos, e o velho Coxon deu-me uma ótima carta de apresentação quando chegou a falência, mas nós, os escriturários, ficamos desempregados; vinte e seis de nós. Tentei aqui e ali, mas havia tantos outros rapazes na mesma situação que por muito tempo foi um completo fracasso. Recebia três libras por semana na casa de Coxon, e economizara setenta, mas depressa as gastei. Em breve atingi o máximo de minhas dificuldades, e já não podia arranjar nem selos para responder aos anúncios, nem envelopes onde pudesse colá-los. Gastei meus sapatos subindo os degraus dos escritórios, e parecia mais longe que nunca de conseguir um emprego.

“Afinal, soube de uma vaga na casa Mawson & Williams, a grande firma de corretagem da Lombard Street. Suponho que não se interesse muito por negócios da Bolsa, mas posso afirmar-lhe que é praticamente a casa mais rica de Londres. O anúncio devia ser respondido somente por carta. Mandei-a com minhas referências e meu currículo, mas sem a menor esperança de conseguir o emprego. Chegou-me a resposta pelo correio dizendo que, se eu aparecesse na segunda-feira, poderia iniciar meu trabalho imediatamente, contanto que minha aparência satisfizesse. Ninguém sabe como essas coisas acontecem. Há pessoas que dizem que o gerente meteu a mão num monte de cartas e tirou a primeira que apanhou. Seja como for, era minha grande chance, e eu nunca me senti mais feliz. O salário era de uma libra, com um extra semanal, e o trabalho, quase o mesmo da casa Coxon.

“E agora chego à parte estranha do negócio. Encontrava-me em meu quarto, no Potter’s Terrace, 17, em Hampstead. Era a mesma tarde em que me fora prometida a colocação, e eu fumava sentado quando a proprietária subiu com um cartão onde estava impresso: “Arthur Pinner, agente de finanças”. Jamais ouvira aquele nome, e não pude atinar com o que ele queria de mim. Mas pedi que o mandasse entrar. Era uma pessoa de estatura média, cabelos e olhos escuros e barba preta, com um laivo lustroso no nariz. Possuía maneiras vivas e falava com astuciosa precisão, como homem que sabe o valor do tempo.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“— Sr. Pycroft, segundo creio — disse ele.

“— Exatamente, senhor — respondi.

“— Esteve empregado recentemente na casa Coxon & Woodhouse?

“— Sim, senhor.

“— E agora pertence ao quadro de funcionários da Mawson?

“— Perfeitamente.

“— Bem — disse ele. — O fato é que tenho ouvido algumas histórias realmente extraordinárias a respeito de suas habilidades em questões de finanças. Com certeza se lembra de Parker, o gerente da Coxon? Ele não se cansa de elogiá-lo.

“— Certamente, alegra-me ouvir isso. — Sempre fui um bom funcionário, mas jamais sonhei ser citado na City.

“— O senhor tem boa memória? — perguntou.

“— Bastante clara — respondi modestamente.

“— Permaneceu em contato com o mercado enquanto esteve desempregado?

“— Sim. Leio as cotações da Bolsa todas as manhãs.

“— Fato que mostra uma verdadeira vocação — exclamou ele. — É a maneira de prosperar. O senhor não me levará a mal se lhe fizer umas perguntas, pois não? Deixe-me ver! Como estão as Aryshires?

“— Cento e cinco a cento e cinco e um quarto.

“— E os consolidados da Nova Zelândia?

“— Cento e quatro.

“— E as British Broken Hills?

“— Sete a sete e seis.

“— Admirável! — exclamou, erguendo as mãos. — Está perfeitamente de acordo com tudo o que eu tinha ouvido. Meu rapaz, meu rapaz! Você é bom demais para ser escriturário da casa Mawson!

“Aquela exclamação muito me espantou, como o senhor pode imaginar.

“— Bem — disse-lhe eu. — Há pessoas que não pensam tão bem de mim como o senhor parece pensar, sr. Pinner. Lutei muito para arranjar esta colocação, e estou muito contente com ela.

“— Qual o quê, homem, você deve subir muito mais! Não está em sua verdadeira esfera. Vou-lhe dizer o que penso a esse respeito. Aquilo que tenho a oferecer-lhe é muito pouco em relação à sua competência, mas compará-lo com a colocação na Mawson é como comparar a água e o vinho. Quando vai para a Mawson?

“— Segunda-feira.

“— Ah! Ah! Creio que posso arriscar um pequeno gracejo, dizendo que não porá os pés naquela casa.

“— Não irei para a Mawson?

“— Não, absolutamente. Nesse dia, será o gerente da Franco-MidIand Hardware Company, Limited, fábrica de louça com cento e trinta e quatro filiais nas cidades e vilas da França, sem contar uma em Bruxelas e uma em San Remo.

“Aquilo quase me fez perder o fôlego.

“— Mas nunca ouvi falar nessa companhia!

“— Provavelmente. Tem sido mantida em sigilo porque o capital investido era todo particular, e é uma coisa muito boa para ser publicada. Meu irmão, Harry Pinner, é seu fundador, e se associará à junta depois de eleito diretor-gerente. Sabendo que eu andava por aqui a tratar de negócios, pediu-me que arranjasse um homem bom, por módico salário, um jovem diligente, que tenha bastante energia. Parker falou-me de você, o que me trouxe aqui esta noite. Só podemos oferecer-lhe a bagatela de quinhentas libras para começar.

“— Quinhentas libras por ano! — gritei.

“— Só para começar. Mas terá uma comissão extra de um por cento em todos os negócios feitos por seus agentes, e posso empenhar minha palavra que ela lhe dará mais que o salário.

“— Mas eu nada sei a respeito de louça.

“— Ora essa, meu rapaz, você conhece os números.

“Minha cabeça zumbia, e foi com dificuldade que consegui sentar-me na cadeira. Mas, de repente, um pequeno sentimento de desconfiança se apoderou de mim.

“— Preciso ser franco — disse eu. — A Mawson dá-me apenas duzentas, mas é garantida. Ora, na realidade não sei quase nada de sua companhia que…

“— Ah!, que esperto, que esperto! — exclamou ele, numa espécie de êxtase de contentamento. — Você é nosso homem. Não se deixa levar por palavras, e faz muito bem. Mas aqui está uma nota de cem libras, se acha que podemos combinar o negócio; meta-a no bolso como adiantamento de seu salário.

“— É muita generosidade — disse eu. — Quando começarei a trabalhar?

“— Esteja amanhã à uma hora em Birmingham. Tenho aqui no bolso um bilhete que você levará a meu irmão. Encontrá-lo-á na Corporation Street, onde estão instalados temporariamente os escritórios da companhia. É claro que ele precisa confirmar o contrato, mas cá entre nós está tudo combinado.

“— Realmente, sr. Pinner, não sei como exprimir minha gratidão.

“— Não há de quê, meu rapaz. Apenas conseguiu o que merece. Há uma ou duas coisas. . . meras formalidades que devo combinar com você. Tem aí um pedaço de papel? Tenha a bondade de escrever: ‘Pretendo trabalhar como gerente da firma Franco-MidIand Hardware Company, Limited, com o salário mínimo de quinhentas libras’.

“Fiz como me pediu, e ele pôs o papel no bolso.

“— Há outro pormenor — disse ele. — O que pensa fazer em relação à Mawson?

“Com a alegria, já esquecera tudo o que dizia respeito à Mawson.

“— Escrevo-lhe para pedir demissão.

“— É exatamente o que não quero que você faça. Já tive um atrito com o gerente da Mawson por sua causa. Fui lá pedir-lhe informações a seu respeito, e ele foi muito agressivo… acusou-me de afastá-lo do serviço da firma, e coisas desse jaez. Por fim, perdi a calma. ‘Se os senhores querem homens bons, devem pagar-lhes um bom salário’, disse eu. ‘Ele prefere nosso pequeno salário em vez do seu’, respondeu ele. ‘Aposto cinco libras’, disse eu, ‘em como o senhor nunca mais ouvirá falar dele se eu lhe fizer nossa oferta.’ ‘Combinado’, respondeu. ‘Nós o tiramos da sarjeta e ele não nos deixará facilmente.’ Foram essas suas palavras.

“— Patife! — gritei. — Nunca o vi em minha vida.

Por que hei de ser atencioso com ele? Certamente não lhe escreverei, se assim o preferir.

“— Ótimo! É um compromisso! — disse ele, levantando-se da cadeira. — Bem, estou muito contente por conseguir uma pessoa tão boa para meu irmão. Aqui está o adiantamento de cem libras, e aqui está a carta. Tome nota do endereço: Corporation Street, 126-B, e lembre-se de que o encontro é amanhã à uma hora. Boa noite, e tenha toda a sorte que merece.

“Foi tudo o que se passou entre nós, tão exatamente quanto posso lembrar. O senhor deve imaginar, dr. Watson, como eu estava contente com aquele extraordinário golpe de sorte. Passei quase toda a noite em claro, congratulando-me comigo mesmo, e no dia seguinte fui para Birmingham, num trem que me levaria com tempo de sobra até meu emprego. Levei minhas coisas para um hotel na New Street, e depois dirigi-me para o endereço que me fora dado.

“Faltavam quinze minutos para a hora marcada, mas pensei que não faria diferença. O 126-B é uma passagem entre duas grandes lojas que conduz a uma escada de pedra em espiral onde há muitos apartamentos alugados para escritórios particulares e de companhias. Os nomes dos ocupantes estavam pintados na parede do térreo. Mas não estava lá o nome da Franco-MidIand Hardware Company, Limited. Por instantes, fiquei com o coração na mão, receando que tudo aquilo não passasse de uma bem-elaborada mistificação, quando apareceu um homem que me abordou. Era muito parecido com o sujeito que vira na noite anterior, a mesma figura e a mesma voz, mas sem barba e com o cabelo mais claro.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

“— É o sr. Hall Pycroft? — perguntou.

“— Sim, senhor — respondi.

“— Estava à sua espera, mas o senhor chegou um pouco antes da hora. Recebi uma carta de meu irmão esta manhã, na qual lhe faz grandes elogios.

“— Estava exatamente à procura dos escritórios quando o senhor chegou.

“— Não pusemos ainda nosso nome, porque só arranjamos estas salas temporárias na semana passada. Venha comigo e discutiremos o assunto.

“Acompanhei-o até o alto de uma escada empinada. Ali, justamente debaixo do patamar, havia um par de salas pequenas, vazias e empoeiradas, sem cortinas e sem tapetes. Pensava num grande escritório com filas de escreventes e mesas envernizadas, ambiente a que estava acostumado. Mas, pelo contrário, vi duas cadeiras de pinho, uma mesinha com o livro razão e a cesta de papel, e o mobiliário se resumia a isso.

“— Não se preocupe, sr. Pycroft — disse meu novo conhecido, vendo-me a expressão do rosto. — Roma não foi feita num dia, e atrás de nós há muito dinheiro, posto que nossos escritórios não façam ainda muito boa figura. Sente-se, por favor, e deixe-me ver sua carta.

“Entreguei-a, e ele a leu com muita atenção.

“— Parece que o senhor causou ótima impressão a meu irmão Arthur — disse ele —, e sei que ele é um juiz muito arguto. Ele trata da parte que diz respeito a Londres, e eu de Birmingham, mas desta vez seguirei o conselho dele. Considere-se, portanto, definitivamente contratado.

“— Quais são meus encargos? — perguntei.

“— Dirigirá o grande centro de Paris, que espalhará um dilúvio de louça inglesa nas lojas de cento e trinta e quatro agentes na França. A compra será completada dentro de uma semana. Enquanto isso, o senhor permanecerá em Birmingham e se fará útil.

“— Como?

“Como resposta, tirou da gaveta um grande livro vermelho.

“— É o guia de Paris, o nome das pessoas seguido de suas profissões. Quero que o leve para casa a fim de marcar todos os vendedores de louça e seus endereços. Ser-me-ão de grande utilidade.

“— Há, seguramente, listas classificadas — sugeri.

“— Não são exatas. Seu sistema é diferente do nosso. Tome o livro e dê-me a lista segunda-feira ao meio-dia. Passe bem, sr. Pycroft. Se continuar a mostrar zelo e diligência, terá na companhia um bom patrão.

“Voltei ao hotel com o grande livro debaixo do braço e com um conflito de sentimentos no peito. Por um lado, estava empregado definitivamente e com cem libras no bolso. Por outro, a aparência do escritório, a ausência do nome na parede, e outros pontos que deviam espantar um homem de negócios deixaram-me má impressão quanto à situação de meus patrões. Mas agora podia vir o que viesse, pois eu já tinha o dinheiro, e por isso dediquei-me à minha tarefa. Passei todo o domingo trabalhando, e na segunda-feira apenas chegara à letra ‘h’. Visitei meu patrão. Encontrei-o na mesma sala desguarnecida. Disse-me que persistisse até quarta-feira, e então voltasse. Quarta-feira estava ainda por terminar, de modo que trabalhei até sexta-feira, que foi ontem. Levei-o então ao sr. Pinner.

“— Muito obrigado — disse ele. — Receio ter compreendido mal a dificuldade da tarefa. Esta lista prestar-me-á grande auxílio no trabalho.

“— Levei bastante tempo — disse eu.

“— E agora — disse ele —, quero que me faça uma lista das casas de móveis, porque todas vendem louças também.

“— Muito bem.

“— E pode vir amanhã às sete da noite para que eu saiba como vai indo o trabalho. Não trabalhe demais. Umas duas horas à noite no Day’s Music-Hall depois do trabalho não o prejudicarão. — Ria quando falava, e me surpreendi ao ver que seu segundo dente do lado esquerdo fora muito mal incrustado com ouro.”

Sherlock Holmes esfregou as mãos com deleite, e eu olhei com espanto para nosso cliente.

— O senhor pode estar estranhando, dr. Watson, mas eu explico. Quando falava com o outro, em Londres, no momento em que riu ao afirmar que eu não poria os pés na Mawson, notei que tinha um dente incrustado daquela maneira. Quando comparei a mesma voz e a mesma figura, alteradas apenas pelo que uma navalha ou uma peruca podem fazer, não duvidei de que era o mesmo homem. É claro que se espera que dois irmãos sejam iguais, mas não que tenham o mesmo dente incrustado do mesmo modo. Ele curvou-se para mim, e encontrei-me na rua completamente transtornado. De regresso ao hotel, meti a cabeça numa bacia de água fria e tentei resolver o problema. Por que ele me teria mandado de Londres para Birmingham? Por que teria ido antes de mim? E por que teria escrito uma carta para si próprio? Era tudo muito estranho, e eu não podia tirar qualquer conclusão. Então, ocorreu-me de repente que o que eram trevas para mim podia ser luz para Sherlock Holmes. Só tive tempo de me dirigir pelo trem da noite à cidade, para vê-lo esta manhã e trazê-los comigo para Birmingham.

Houve uma pausa depois que o escriturário da casa de corretagem concluiu sua surpreendente narrativa. Então, Sherlock Holmes piscou-me o olho, encostando-se na poltrona com uma cara de satisfação, como um conhecedor que acabou de tomar o primeiro trago de uma vindima selecionada.

— Excelente, Watson, não é? Há pontos que me agradam. Creio que concordará comigo em que uma entrevista com o sr. Pinner no escritório temporário da Franco-MidIand Hardware Company, Limited, seria uma experiência muito interessante para ambos.

— Mas como a conseguiremos? — perguntei.

— Oh!, é muito fácil — disse Hall Pycroft com alegria. — Os senhores são dois amigos meus que procuram colocação, e nada mais natural do que levá-los à presença do diretor-gerente!

— Isso mesmo! Muito bem — exclamou Holmes. — Gostaria de apreciar o cavalheiro, para ver se descubro alguma coisa mais de seu jogo. Meu amigo, que qualidades possui o senhor que tornam seu serviço tão valioso? Ou seria possível que… — e começou a morder as unhas e a olhar vagamente pela janela; não lhe arrancamos outra palavra até chegarmos à New Street.

Às sete horas, naquela noite, descíamos os três a Corporation Street em direção ao escritório da companhia.

— Não vale a pena chegarmos antes da hora — disse nosso cliente. — Aparentemente ele só vai lá para me ver, porque, fora dos horários marcados, o escritório está sempre deserto.

— Isso é sugestivo — observou Holmes.

— Por Júpiter, olhem lá! — exclamou o escrevente.

— Lá vai ele, andando à nossa frente.

Apontou para um homem relativamente baixo, louro e bem-vestido, que caminhava depressa do outro lado da rua. Quando olhávamos para ele, aproximou-se de um garoto que apregoava a última edição do jornal da tarde, correndo entre carros e ônibus, e comprou-lhe um. Então, segurando firmemente o jornal, desapareceu atrás da porta.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

— Lá vai ele! — gritou Hall Pycroft. — Lá onde entrou são os escritórios da companhia. Venham comigo, e trataremos do assunto tão facilmente quanto possível.

Seguindo-lhe o rastro, subimos cinco andares, até encontrarmos uma porta meio aberta, onde nosso cliente bateu. Uma voz de dentro ordenou: “Entre”. Penetramos numa sala nua, tal como Hall Pycroft a descrevera. Junto da única mesa estava sentado o homem que tínhamos visto na rua, o jornal à sua frente, e quando olhou para nós pareceu-me que nunca encarara um rosto que ostentasse tantos sinais de angústia — e de alguma coisa mais: uma dor que poucos homens sentem na vida. As sobrancelhas brilhavam de suor, a face tinha o tom branco, triste e sepulcral do ventre de um peixe, e os olhos pareciam selvagens e espantados. Olhou para seu escrevente como se não pudesse reconhecê-lo, e pude notar, pelo assombro que se estampou na fisionomia de nosso guia, que aquela não era a aparência habitual de seu patrão.

— Parece que o senhor está doente, sr. Pinner! — exclamou ele.

— É verdade. Não me sinto bem — respondeu o outro, fazendo óbvios esforços para se recompor, e lambendo os lábios secos antes de falar. — Quem são estes cavalheiros?

— Este é o sr. Harris, de Bermondsey, e este outro é o sr. Price, desta cidade — disse nosso escriturário com desembaraço. — São meus amigos, homens experientes, mas ficaram desempregados há pouco tempo e esperavam que o senhor talvez lhes pudesse conseguir uma vaga no quadro de funcionários da companhia.

— É muito possível. É muito possível — repetiu, com um sorriso medonho. — Não tenho dúvida de que poderemos arranjar-lhes qualquer coisa. Qual é sua profissão, sr. Harris?

— Contabilista — disse Holmes.

— Ah! Precisamos de algo desse género. E o senhor, sr. Price?

— Escriturário — disse eu.

— Espero que a companhia possa admiti-los. Eu lhes darei uma resposta logo que cheguemos a qualquer conclusão. E agora peco-lhes que se retirem. Deixem-me só, pelo amor de Deus.

As últimas palavras foram uma espécie de descarga, como se a contenção a que se tinha sujeitado de modo repentino e perfeito se rompesse. Holmes e eu olhamos um para o outro, e o sr. Pycroft aproximou-se da mesa.

— O senhor esquece, sr. Pinner, que estou aqui a seu pedido, para receber instruções — disse ele.

— É verdade, sr. Pycroft, é verdade — respondeu o outro, num tom mais calmo. — O senhor pode esperar um momento, e não vejo razão para que seus amigos também não esperem. Dentro de três minutos estarei inteiramente à sua disposição, caso sua paciência seja suficiente… — Levantou-se com ar muito cortês, fez-me uma vénia quando passava pela porta, na extremidade da sala, e fechou-a atrás de si.

— E agora? — murmurou Holmes. — Estará fugindo sorrateiramente?

— Impossível — respondeu Pycroft.

— Por quê?

— A porta dá para uma sala interior.

— Não há saída?

— Nenhuma.

— Está mobiliada?

— Ontem estava vazia.

— Então que diabo estará fazendo? Há coisas aqui que não entendo. Mas, se já existiu uma pessoa cheia de loucura e terror, o nome dessa pessoa é Pinner. De onde lhe veio esse pavor?

— Talvez suspeite que somos detetives — sugeri.

— Talvez — admitiu Pycroft.

Holmes meneou a cabeça.

— Ele não empalideceu. Já estava pálido quando entramos na sala — disse Holmes. — É possível que…

Suas palavras foram interrompidas por um agudo martelar do outro lado da porta interna.

— Por que diabo estará batendo em sua própria porta? — exclamou o escriturário.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

Ouviu-se novamente o ruído, agora mais alto. Todos olhamos ansiosamente para a porta fechada. Encarando Holmes, vi que seu rosto se tornara rígido e que se inclinava um pouco para a frente, com intensa emoção. Então, ouviu-se de repente um som cavernoso, gorgorejante, e um rápido tamborilar no madeiramento. Holmes precipitou-se violentamente para a sala e empurrou a porta. Estava trancada por dentro. Seguindo-lhe o exemplo, arremessamo-nos contra ela com todo o nosso peso. Um gonzo quebrou-se, depois o outro cedeu e a porta veio abaixo com um grande estalo. Precipitamo-nos para ela e entramos numa sala interior. Estava vazia.

Mas o logro foi apenas momentâneo. Num canto, o canto mais próximo da sala que deixáramos, havia uma segunda porta. Holmes arremessou-se contra ela e abriu-a. Um casaco e um colete estavam no soalho, e, num gancho atrás da porta, com os suspensórios em volta do pescoço, estava pendurado o diretor da Franco-MidIand Hardware Company. Tinha os joelhos encolhidos, e sua cabeça pendia num medonho ângulo sobre o corpo; o bater dos tornozelos contra a porta é que provocara o ruído que interrompera nossa conversação. Num instante, agarrei-o pela cintura e pu-lo de pé, enquanto Holmes e Pycroft lhe desatavam as faixas elásticas que haviam desaparecido entre as rugas lívidas da pele.

Em seguida, levamo-lo para a outra sala, onde ficou estendido com o rosto cor de ardósia, agitando os lábios para dentro e para fora a cada respiração — destroço medonho da pessoa que fora cinco minutos antes.

— O que lhe parece, Watson? — perguntou Holmes.

Curvei-me para examiná-lo. Seu pulso estava fraco e intermitente, mas a respiração aumentava, e havia uma peque na contração das pálpebras que mostrava uma tênue faixa branca do globo ocular na parte interior.

— Escapou por um triz — disse eu —, viverá. Abram aquela janela e dêem-me a garrafa de água fria. — Afrouxei-lhe o colarinho, deitei-lhe água fria no rosto, levantei-lhe e abaixei-lhe os braços até produzir uma longa e natural respiração.

— Agora, é questão de tempo — disse eu, afastando-me dele.

Holmes ficou de pé ao lado da mesa, as mãos mergulhadas nos bolsos das calças e o queixo sobre o peito.

— Suponho que agora devemos chamar a polícia — disse ele; — todavia, confesso que gostaria de lhes dar uma explicação completa quando eles viessem.

— É um impenetrável mistério para mim — exclamou Pycroft, coçando a cabeça. — O que me quiseram fazer saiu ao contrário, e então…

— Basta! Tudo está muito claro — disse Holmes com impaciência. — Menos este último gesto repentino.

— Compreende o resto então?

— Creio que está perfeitamente claro. O que diz, Watson?

Encolhi os ombros.

— Confesso que não entendo nada — disse eu.

— Entende, sim, se começar por considerar que os acontecimentos só podem ter uma conclusão.

— E o que faz com eles?

— Oh!, tudo gira à volta de dois pontos. O primeiro foi fazer Pycroft escrever uma declaração, por meio da qual entrou ao serviço desta pretensa companhia. Não vê como é sugestivo?

— Receio que não esteja atinando.

— Ora, por que teriam querido que ele a fizesse? Não por uma questão comercial, porque esses arranjos são habitualmente verbais, e não há razão para que esta fosse uma exceção. Não percebe, meu jovem amigo, que estavam muito ansiosos por obter uma amostra de sua caligrafia, e que não havia outro meio de consegui-la?

— E para quê?

— Aí é que está. Para quê? Quando este ponto for esclarecido, já se terá resolvido parte do problema. Para quê? Só pode haver um motivo. Alguém queria aprender a imitar sua letra, e primeiro tinha de procurar uma amostra. Se passarmos para o segundo ponto, descobriremos que um lança luz sobre o outro. Esse ponto é o pedido de Pinner para que o senhor não declinasse o lugar, mas que deixasse o gerente deste importante negócio em plena expectativa de que o sr. Hall Pycroft, que nunca tinha visto, entrasse no escritório segunda-feira de manhã.

— Meu Deus! — gritou nosso cliente. — Que animal tenho sido!

— Agora já percebe o porquê da caligrafia. Suponhamos que alguém se apresentasse em seu lugar e escrevesse numa letra completamente diferente da que o senhor usou ao pedir a colocação: o jogo seria certamente descoberto. Mas o velho aprendeu a imitá-la e sua posição foi portanto segura, pois presumo que ninguém no escritório o conhecia.

— Nem uma alma — grunhiu o sr. Pycroft.

— Muito bem. Era, certamente, da maior importância impedi-lo de pensar melhor, afastá-lo, também, do contato com alguém que pudesse dizer que seu duplo estava no escritório da Mawson. Portanto, fizeram-lhe um generoso adiantamento e mandaram-no para a Midiand, onde lhe deram trabalho suficiente para impedi-lo de ir a Londres, onde lhes podia ter estragado o joguinho. Tudo isto é muito claro.

— Mas por que este homem queria passar por seu próprio irmão?

— Ora, isso também é perfeitamente claro. Há, evidentemente, apenas dois neste negócio. O outro está substituindo-o no escritório. Um deles agiu como o contratador, e descobriu que não lhe podia arranjar um patrão sem admitir uma terceira pessoa no conluio. Era justamente isso o que ele não queria. Mudou a aparência quanto pôde, e confiou em que a semelhança, que o senhor não podia deixar de observar, seria tida por semelhança de família. Mas, por um feliz acaso, a incrustação de ouro levantou-lhe suspeitas que provavelmente nunca teriam surgido.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

O sr. Pycroft agitou as mãos no ar.

— Santo Deus! — gritou ele. — Enquanto fiz papel de idiota, o que o outro Hall Pycroft estaria fazendo no escritório da Mawson? O que hei de fazer, sr. Holmes? Diga-me!

— Precisamos telegrafar para a Mawson.

— Mas aos sábados eles fecham ao meio-dia.

— Não faz mal; pode ser que haja porteiro ou guarda.

— Ah!, sim; têm um guarda permanente por causa do valor dos títulos que conservam. Lembro-me de ter ouvido falar nisso na City.

— Muito bem, nós lhe telegrafaremos, e veremos se tudo corre bem e se um escriturário com seu nome trabalha lá. Tudo está claro, mas o que não está tão claro é por que motivo, ao ver-nos, um dos velhacos saiu imediatamente da sala e se enforcou.

— O jornal! — exclamou uma voz atrás de nós. O homem tentava sentar-se, pálido e horrível, com um começo de consciência nos olhos, esfregando nervosamente a faixa vermelha e larga que ainda se via em redor de seu pescoço.

— O jornal! Certamente! — berrou Holmes, num paroxismo de excitação. — Idiota que fui! Tanto pensei em nossa visita que o jornal jamais me passou pela cabeça. É claro que nele está o segredo. — Inclinou-se para lê-lo e soltou um grito de triunfo.

— Olhe isto, Watson! — gritou ele. — É o jornal de Londres, uma primeira edição do Evening Standard. Aqui está o que queremos. Olhe para os títulos:

CRIME NA CITY

ASSASSINATO NA CASA MAWSON & WILLIAMS

GIGANTESCA TENTATIVA DE ROUBO

CAPTURA DO CRIMINOSO

— Estamos todos aqui, Watson, ansiosos por ouvir; tenha a bondade de ler a notícia em voz alta.

Pelo espaço que ocupava no jornal, parecia ser o único acontecimento de importância da capital, e a notícia consistia no seguinte:

“Uma desesperada tentativa de roubo, culminando com a morte de um homem e a captura do criminoso, ocorreu esta tarde na City. Há algum tempo a Mawson & Williams, famosa casa de finanças, tem sido guardiã de títulos que montam a mais de um milhão de esterlinos. O gerente estava tão consciente da responsabilidade que lhe cabia, em consequência dos interesses em jogo, que vinha usando os cofres mais modernos, e um guarda armado ficava dia e noite no edifício. Parece que na última semana um escriturário chamado Hall Pycroft foi contratado pela firma. Mas essa pessoa transformou-se em outra: Beddington, o famoso falsário e arrombador, que recentemente emergiu, com seu irmão, de uma prisão penal, depois de cinco anos de trabalhos forçados. Por meios que ainda não estão bem claros, conseguiu, sob um nome falso, esta posição oficial no escritório, e utilizou-a para tirar moldes de várias fechaduras, obtendo um conhecimento perfeito da caixa-forte e dos cofres.

Sidney Paget, 1893

Sidney Paget, 1893

É costume na Mawson dispensar os funcionários ao meio-dia dos sábados. O sargento Tuson, da polícia da City, ficou pois surpreso ao ver um cavalheiro, com uma sacola, descer as escadarias à uma e vinte. Achando suspeito, o sargento seguiu o homem e, com o auxílio de outro policial, chamado Pollock, conseguiu prendê-lo depois de uma desesperada resistência. Ficou logo patente que um ousado e gigantesco roubo fora cometido. Quase cem mil libras de ações de companhias ferroviárias americanas, com uma grande quantidade de títulos de minas e outras companhias, foram encontradas na sacola. Em vista dos fatos anteriores, o corpo do infeliz guarda foi procurado e encontrado, dobrado e atirado para dentro do maior dos cofres, onde somente segunda-feira de manhã seria descoberto, não fosse a ação pronta do sargento Tuson. O homem tinha a cabeça esmigalhada a golpes de um atiçador, abandonado pelo criminoso. Não resta dúvida de que Beddington conseguira entrar sob a alegação de ter esquecido qualquer coisa e, depois de matar o guarda, esvaziou rapidamente o cofre e saiu com o butim. Seu irmão, que habitualmente trabalha com ele, até onde se pode verificar, não participou desse assalto, embora a polícia faça minuciosa investigação para descobrir seu paradeiro.”

— Bem podemos livrar a polícia desse trabalho — disse Holmes, olhando para a figura pálida e descomposta junto da janela. — A natureza humana é uma mistura estranha, Watson. Veja, até um vil assassino pode inspirar tal afeição, que o irmão se decide pelo suicídio quando lhe sabe sentenciado o pescoço. O doutor e eu ficaremos de guarda, sr. Pycroft, se o senhor quiser ter a bondade de ir chamar a polícia.

[1] “Exagerados.” Em francês no original. (N. do E.)

1894
Memórias de Sherlock Holmes

1. Estrela de Prata § 2. A caixa de papelão
3. A face amarela § 4. O escriturário da corretagem
5. A tragédia do “Gloria Scott” § 6. O ritual Musgrave
7. O enigma de Reigate § 8. O corcunda
9. O paciente internado § 10. O intérprete grego
11. O tratado naval § 12. O problema final

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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