As faias cor de cobre

Arthur Conan Doyle

As faias cor de cobre

Título original: The Copper-Beaches
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Junho de 1892 e com 9 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Copper-Beaches publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume II,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

— Para o homem que segue a arte por amor à própria arte, é freqüentemente das suas manifestações menos importantes e mais simples que deriva o maior prazer — observou Sherlock Holmes, pondo de lado a página de anúncios do Daily Telegraph. — É agradável para mim observar, Watson, que você compreendeu, tanto quanto possível, essa verdade naquelas pequenas narrativas dos nossos casos, que tão bondosamente vem colecionando e ampliando com um pouco de fantasia. Você tem salientado não somente as causes célebres e julgamentos sensacionais em que tomei parte, como também aqueles incidentes em si mesmo triviais, mas que têm permitido o exercício das faculdades de dedução e de síntese lógica de que tenho feito o meu especial trabalho.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

“Todavia, talvez tenha errado”, observou ele, pegando uma brasa viva com as tenazes e acendendo com ela o seu cachimbo de barro, como de costume quando estava pensativo e não queria discutir. “Você talvez tenha errado em se esforçar por colorir e avivar cada uma das suas narrativas, em vez de se limitar ao trabalho de anotar o raciocínio severo de causa e efeito, que é verdadeiramente o único ponto característico no assunto.”

— Parece-me que lhe fiz ampla justiça a esse respeito — observei friamente, porque me senti repelido pelo egoísmo e orgulho que reparei serem uma constante no caráter do meu amigo.

— Não, não é egoísmo, nem presunção — disse ele, respondendo mais aos meus pensamentos do que às minhas palavras, como era seu costume. — Se exijo inteira justiça à minha arte, é por tratar-se, precisamente, de coisa impessoal… uma coisa à parte de mim. O crime é comum. A lógica é rara, e portanto você deve salientar mais a lógica do que o crime. Você põe ao nível de uma simples sucessão de historietas o que deveria ter sido uma série de conferências.

Era uma manhã fria de primavera, e estávamos sentados, um de cada lado de um bom fogo, na velha sala da Baker Street. Uma neblina grossa rolava entre a fileira de casas escuras, e as janelas das casas em frente pareciam manchas sem forma. Nosso lampião a gás estava aceso e brilhava sobre a toalha branca e sobre os pratos e talheres que não tinham sido retirados ainda.

Sherlock Holmes mantivera-se em silêncio toda a manhã, estudando as colunas de anúncios dos jornais, até que, desistindo finalmente, começara a censurar meus erros literários. Depois de uma pausa, observou:

— Ao mesmo tempo, você não pode ser acusado de sensacionalismo, porque, desses casos que teve a bondade de relatar, uma boa porção não trata de crime, no sentido legal. Aquele, por exemplo, em que me esforcei por ajudar o rei da Boêmia; a experiência singular da Srta. Mary Sutherland; o problema do homem da boca torta e o incidente do solteirão nobre, todos eram assuntos fora do alcance da lei. Mas, ao evitar o sensacionalismo, temo que tenha caído no trivial.

— Pode ser que isso se aplique ao final das histórias, mas os métodos empregados têm sido invulgares e interessantes.

— Ah… meu rapaz, que é que faz o público, o grande público distraído, que não distingue o tecelão pelo dente, nem um compositor pelo polegar esquerdo? Porém, se você é comum, não posso acusá-lo, porque os dias dos casos importantes já passaram. O homem, pelo menos o criminoso, perdeu o entusiasmo e a originalidade. Quanto à minha profissão, parece que vai degenerando numa agência para recuperar lápis perdidos e dar conselhos a estudantes estouvados. Parece-me que cheguei agora realmente ao cúmulo, e este bilhete que hoje recebi é o ponto zero, penso eu. Leia-o — disse ele, atirando-me um papel amarrotado. Trazia a data do dia anterior e vinha da Montague Place.

“Caro sr. Holmes:

Estou ansiosa por consultá-lo a fim de saber se devo ou não aceitar uma colocação que me foi oferecida como governanta. Irei aí às dez e trinta, amanha, se não lhe for inconveniente.

Sinceramente,

Violet Hunter.”

— Conhece essa moça? — perguntei.

— Não.

— Já são dez e trinta.

— Sim, e com certeza é ela quem está tocando a campainha.

— Pode ser que o caso seja de mais interesse do que imagina. Lembre-se da história do carbúnculo azul, que parecia apenas uma fantasia, mas que exigiu uma investigação séria. Talvez este seja assim também.

— Bem, esperemos que seja! Nossas dúvidas depressa serão resolvidas, porque vem aí a pessoa em questão.

Enquanto ele dizia isso, a porta se abriu e uma jovem entrou. Estava vestida com simplicidade, e seu rosto, coberto de sardas, denotava inteligência. Dava a impressão de ser pessoa habituada a ganhar a vida independentemente.

— O senhor há de me desculpar por ter vindo incomodá-lo — disse ela quando meu companheiro se levantou para cumprimentá-la. — Tive uma experiência muito estranha, e, como não tenho nem pais nem parentes a quem consultar, pensei que talvez o senhor quisesse ter a bondade de me aconselhar sobre o que devo fazer.

— Sente-se, por favor, Srta. Hunter. Terei muito prazer em servi-la.

Vi que Holmes estava impressionado pelas maneiras e conversação da sua nova cliente. Olhou-a com aquele seu modo perscrutador e depois acomodou-se na poltrona, com os olhos meio fechados e as pontas dos dedos unidas para escutar a história.

— Fui governanta durante cinco anos — disse ela — em casa do coronel Spence Munro, mas há dois meses o coronel foi transferido para a América, para Halifax, na Nova Escócia, e levou consigo os filhos, ficando eu sem emprego. Pus um anúncio no jornal, respondi também a anúncios, mas sem resultado. O pouco dinheiro que tinha guardado estava acabando e eu sem saber o que fazer.

“Há uma agência muito conhecida para governantas, no West End, chamada Westaway, e eu ia lá uma vez por semana para ver se havia alguma coisa que me servisse. Westaway é o nome do fundador da agência, mas agora é uma certa Srta. Sloper que, sentada no seu pequeno escritório, atende as pessoas à procura de emprego; os candidatos ficam na sala de espera e são recebidos cada um por sua vez. Então ela consulta os registros e vê se há algo que lhes sirva.

“Bem, quando estive lá na semana passada, percebi que a Srta. Sloper não estava sozinha. Um homem muito gordo, de rosto sorridente e queixo grande, de óculos, estava a seu lado, olhando fixamente cada candidata. Quando entrei, ele saltou da cadeira e virou-se apressadamente para a Srta. Sloper:

“— Chega — disse ele —, não podia encontrar coisa melhor. Esplêndido!

“Parecia muito entusiasmado e esfregava as mãos com uma alegria que dava prazer ver.

“— A senhorita está procurando emprego? — perguntou.

“— Sim, senhor.

“— Como governanta?

“— Sim, senhor.

“— E que ordenado pede?

“— No último emprego, em casa do coronel Spence Munro, recebia quatro libras por mês.

“— Oh, basta, uma insignificância! — gritou ele, levantando as mãos como quem está indignado. — Como poderia alguém oferecer tão pouco por uma pessoa tão atraente e habilitada?

“— Meus talentos, senhor, talvez sejam menores do que imagina — ripostei eu. — Um pouco de francês, alemão, música e desenho…

“— Basta! — exclamou ele. — Tudo isso está além do necessário. O ponto essencial é se tem ou não uma boa formação. Isso é o principal. Se não tiver, não é digna de criar uma criança que poderá, um dia, desempenhar papel considerável na história do país. Tendo esse dom, como poderia um cavalheiro pedir-lhe para aceitar quantia inferior a três algarismos? Seu ordenado comigo, senhorita, começaria por cem libras anuais.

“Deve imaginar, Sr. Holmes, que para mim, desempregada como estava, tal oferta parecia boa demais para ser verdade. Vendo um olhar de incredulidade no meu rosto, o cavalheiro abriu a carteira e dela tirou uma nota.

“— É meu costume — disse ele, sorrindo com a maior amabilidade, e os olhos quase se fechavam entre as rugas da face — adiantar sempre meio salário, porque assim as jovens que emprego podem fazer qualquer despesa que lhes seja necessária para o seu guarda-roupa e viagem.

“Parecia-me que nunca havia encontrado homem tão bondoso e encantador. Tinha já algumas dívidas, e aquele adiantamento vinha mesmo a propósito. Todavia, havia qualquer coisa tão fora do natural em toda a transação que decidi saber um pouco mais antes de me comprometer.

“— Posso perguntar onde o senhor mora?

“— Hampshire. Lugarzinho rural encantador. Na Vila das Faias Cor de Cobre, distante oito quilômetros do outro lado de Winchester. É um lugar lindo, e com uma casa de campo muito confortável.

“— E os meus deveres, senhor? Gostaria de saber quais seriam.

“— Uma criança, um garoto brincalhão de seis anos de idade. Oh, se pudesse vê-lo matar baratas com um chinelo! Plaque! Plaque! Plaque! E lá se vão três num piscar de olhos. — E ele recostou-se na cadeira e riu a valer.

“Fiquei um pouco admirada com a natureza do divertimento da criança, mas a risada do pai me fez pensar que talvez ele estivesse fazendo graça.

“— Meus deveres, então — disse eu —, seriam os de cuidar somente de uma criança?

“— Não, não exclusivamente — exclamou ele. — Seu dever seria, como tenho certeza de que o seu bom senso já lhe sugeriu, obedecer a qualquer pedido feito por minha esposa, contanto que sejam da incumbência de uma jovem distinta. Não há dificuldade quanto a isso?

“— Terei prazer em servi-la.

“— Muito bem. Roupa, por exemplo! Somos excêntricos, mas bondosos. Se lhe pedíssemos para usar certo vestido que lhe daremos, faria alguma objeção?

“— Não — disse eu, atônita ante as palavras dele.

“— Ou se lhe pedíssemos para se colocar aqui ou acolá, não se ofenderia?

“— Oh, não.

“— Ou para cortar seus cabelos bem curtos antes de ir para lá?

“Mal pude acreditar no que estava ouvindo. Como vê, sr. Holmes, tenho cabelos longos e de uma cor castanho-clara. Dizem até que são de artista. Não podia nem sonhar em sacrificá-los dessa maneira, sem mais nem menos.

“— Sinto, mas é impossível — volvi eu.

“Ele me olhava atentamente, e vi uma sombra passar pelo seu rosto quando assim falei.

“— Sinto, mas é essencial, é uma esquisitice de minha mulher. A senhorita sabe que as mulheres têm gostos estranhos, que precisam ser levados em consideração. Então não quer cortar os cabelos?

“— Não, senhor, não posso — respondi com firmeza.

“— Está muito bem; então está terminado o caso. É pena, porque de outro modo a senhorita serviria muito bem. Nesse caso, Srta. Sloper, devo entrevistar mais algumas das candidatas.

“A agente estivera ocupada com seus papéis durante todo o tempo sem dizer palavra, mas agora olhava-me com tanto aborrecimento no rosto que eu não pude deixar de suspeitar de que tivesse perdido uma boa comissão devido à minha recusa.

“— Quer que continue com o seu nome no registro? — perguntou ela.

“— Sim, por favor, Srta. Sloper.

“— Mas, realmente, parece inútil, já que recusa uma excelente oferta como esta — disse ela severamente. — Não pode esperar que nos esforcemos por arranjar outra oportunidade destas! Até logo, Srta. Hunter.

“Sacudiu a sineta que estava em cima da mesa, e o contínuo levou-me para fora.

“Quando cheguei ao meu quarto, Sr. Holmes, e vi tão pouca comida no aparador e duas ou três contas em cima da mesa, perguntei a mim mesma se não teria feito uma asneira. Afinal de contas, se aquela gente tinha uns gostos estranhos e esperava obediência a coisas esquisitas, pelo menos estava pronta a pagar bem pelas suas excentricidades. Poucas são as governantas da Inglaterra que ganham cem libras por ano. Além disso, para que servia minha basta cabeleira? Muita gente fica melhor sem os cabelos compridos, e talvez fosse bom cortá-los.

“No dia seguinte, achei que tinha cometido um erro e decidi remediá-lo. Combati o orgulho e pensava voltar à agência para saber se a vaga ainda não tinha sido preenchida, quando recebi esta carta daquele mesmo senhor; vou lê-la:

“Faias Cor de Cobre, perto de Winchester.

Cara Srta. Hunter:

A Srta. Sloper deu-me o seu endereço, e escrevo-lhe para lhe perguntar se não quer reconsiderar sua decisão. Minha mulher gostaria muito que a senhorita viesse, pois ficou satisfeitíssima com a minha descrição. Estamos prontos a lhe pagar trinta libras por trimestre, ou seja, cento e vinte libras por ano, para compensá-la de qualquer pequena inconveniência que nossas excentricidades lhe possam causar. Afinal de contas, não somos muito exigentes. Minha mulher aprecia certo tom de azul e gostaria que a senhorita usasse um vestido assim, em casa, pela manhã. Não precisa comprá-lo, porque temos um que pertencia à minha querida filha Alice (agora em Filadélfia), que, penso, lhe serviria muito bem. Quanto a sentar-se aqui ou ali, ou distrair-se de qualquer outro modo indicado, não lhe causaria nenhuma inconveniência. Quanto aos seus cabelos, talvez seja uma pena cortá-los, não pude deixar de reparar quão belos são, mas preciso me manter firme nesse ponto e espero que o aumento de ordenado compense a sua perda.

Seus deveres quanto à criança são leves.

Se decidir vir, irei apanhá-la de carro em Winchester. Mande dizer em que trem chegará.

Sinceramente,

Jefro Rucastle.’

“Recebi esta carta agora mesmo, Sr. Holmes, e decidi aceitar a oferta. Pensei, todavia, que antes de dar o passo final deveria submeter o assunto à sua consideração.”

— Bem, Srta. Hunter, se já resolveu, acabou-se — disse Holmes, sorrindo.

— Mas o senhor acha que devo recusar?

— Confesso que não gostaria que uma irmã minha aceitasse um emprego desses.

— Que será que isto tudo quer dizer, Sr. Holmes?

— Não tenho dados. Não posso saber. Talvez a senhorita já tenha formado alguma opinião.

— Bem, parece-me que há uma única hipótese possível. O Sr. Rucastle parece ser um homem de bom gênio. Será que sua esposa é maníaca e que ele não deseja publicidade, para evitar que ela seja levada a um asilo, e lhe faz as vontades para evitar ataques piores?

— É uma hipótese possível, de fato. As aparências tornam-na muito provável. Porém, em todo caso, não é um, lar agradável para uma jovem.

— Mas o ordenado, Sr. Holmes, o dinheiro!

— Bem, o pagamento é bom… bom demais. É por isso que estou preocupado: por que pagar cento e vinte libras à senhorita, quando poderiam escolher outra por quarenta? Há alguma razão muito forte por trás disso.

— Pensei que, contando-lhe as circunstâncias, o senhor me ajudaria se eu viesse a precisar do seu auxílio. Assim eu me sentiria com mais coragem, sabendo que o senhor se interessava pelo caso.

— Oh, então pode ficar descansada quando lá estiver. E digo-lhe que seu pequeno problema promete ser dos mais interessantes que tenho encontrado desde há alguns meses. Há qualquer coisa estranha ligada aos pormenores que descreve. Se se achar em dúvida ou perigo…

— Perigo? Que perigo prevê o senhor?

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

Holmes abanou a cabeça solenemente.

— Cessaria de ser um perigo se pudéssemos defini-lo — disse ele. — Mas a qualquer hora, do dia ou da noite, um telegrama me levará em seu auxílio.

— É o suficiente.

Ela levantou-se rapidamente, com o rosto livre de toda a preocupação.

— Irei para Hampshire sossegadamente agora. Escreverei logo mais ao Sr. Rucastle, sacrificarei o meu cabelo hoje à noite, e partirei para Winchester amanhã.

E, com algumas palavras de gratidão a Holmes, disse-nos boa-noite e saiu.

— Pelo menos — retorqui, quando ouvimos seus passos firmes e decididos descendo a escada —, ela parece ser uma jovem capaz de cuidar de si.

— E será necessário. Se não me engano, não passarão muitos dias antes que recebamos uma comunicação dela.

Durante uns quinze dias meus pensamentos freqüentemente volviam na sua direção, e imaginava em que estranha experiência aquela pobre jovem tinha entrado. O ordenado, as condições impostas, os deveres tão leves, tudo demonstrava qualquer coisa de anormal, mas se era excentricidade ou conspiração, ou se o homem era filantropo ou malandro, estava fora do meu poder determinar.

Quanto a Holmes, observei que ele freqüentemente ficava sentado durante uma meia hora, com a testa enrugada e abstraído, mas quando eu lhe falava no caso, irritava-se logo:

— Dê-me dados, dados! — gritava ele, impaciente. — Não posso fabricar tijolos sem barro!

Ao mesmo tempo, terminava sempre dizendo que nunca teria permitido que uma irmã sua aceitasse tal emprego. O telegrama que um dia recebemos chegou tarde, à noite. Eu já me preparava para ir dormir e Holmes para começar algumas pesquisas químicas que gostava de fazer.

Ele abriu o envelope amarelo e, olhando o texto, atirou-me o papel.

— Veja o horário dos trens. — E voltou para os estudos químicos.

A chamada era breve e urgente:

“Faça o favor de estar no Hotel Cisne Negro, em Winchester, amanhã ao meio-dia. Venha! Não sei o que fazer.

Hunter”.

— Quer ir comigo? — perguntou Holmes.

— Gostaria muito.

— Veja então a hora do trem.

— Há um às nove e trinta. Deve chegar a Winchester às onze e trinta.

— Esse é bom. Então talvez deva adiar estas minhas experiências com acetona, porque precisamos descansar para estarmos preparados para o dia de amanhã.

Às onze horas do dia seguinte estávamos muito perto dessa antiga capital inglesa. Holmes passou todo o tempo lendo os jornais.

A paisagem era linda e anunciava a entrada da primavera.

— Como está agradável! — exclamei, com o entusiasmo de um homem que se vê livre da neblina de Londres. Mas Holmes sacudiu a cabeça solenemente.

— Sabe, Watson, que uma das maldições de uma mentalidade como a minha é não poder desviar a atenção do assunto especial com que está ocupada. Você olha para aquelas casas e impressiona-se com sua beleza. Eu as olho, e o único pensamento que me vem é o do isolamento e da impunidade com que o crime pode ser perpetrado ali.

— Céus! — exclamei. — Quem associaria um crime àquelas lindas casas antigas?

— Elas sempre me causam horror. Estou convencido, Watson, baseado na experiência, de que as vielas mais baixas e vis de Londres não apresentam maior número de pecados do que a mais linda e alegre paisagem do campo.

— Você me horroriza.

— Mas é óbvia a razão. A opinião pública pode mais numa cidade do que a própria polícia. Muitos crimes são cometidos nesses lugares retirados sem que ninguém tome conhecimento deles. Se esta jovem que pede agora o nosso auxílio tivesse ido para Winchester, por exemplo, nunca me preocuparia a respeito dela. É a distância que se torna perigosa. Todavia, penso que não é ela que está sendo ameaçada.

— Não, dado que pode vir a Winchester para nos encontrar.

— Exatamente. Ela está livre.

— O que pode ser então? Não sugere nada?

— Tenho sete hipóteses, e cada qual explicaria os fatos como os conhecemos, mas só poderemos saber qual delas é a certa pelas informações que devem estar à nossa espera. Bem, lá está a torre da catedral. Logo saberemos o que a Srta. Hunter tem a nos contar.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

O Hotel Cisne Negro ficava na High Street, pouco distante da estação, e lá encontramos a jovem à nossa espera. Tinha ocupado uma sala, e o almoço estava sobre a mesa.

— Estou tão contente com a vinda dos senhores! Foi grande bondade dos dois. Seu conselho será de inestimável valor para mim.

— Peço-lhe o favor de contar-nos o que lhe aconteceu.

— Sim, direi, mas depressa, porque prometi ao Sr. Rucastle voltar antes das três horas. Tive licença dele para vir à cidade esta manhã, mas ele nem imagina para o que vim.

— Conte tudo. — E Holmes acomodou-se diante do fogo para escutar.

— Em primeiro lugar, preciso dizer que não me têm maltratado. É justo que se diga isso, mas não os compreendo e estou perturbada a respeito deles.

— O que é que não entende?

— As razões da conduta deles, mas já conto tudo. Quando cheguei, o Sr. Rucastle encontrou-me aqui e levou-me de carro para as Faias. É uma casa linda, como ele disse, situada nos seus próprios terrenos e pouco distante da estrada para Southampton.

“Há matas ao redor, pertencentes à herdade de lorde Southerton, e um renque de faias cor de cobre em frente à porta da entrada, que lhe dão o nome. Fui apresentada pelo patrão à sua esposa e à criança. Não há nada de verdade quanto à nossa conjectura, a Sra. Rucastle não está demente. Achei-a calma, pálida, muito mais jovem que o marido, uns trinta anos, penso eu, pois ele deve ter uns quarenta e cinco. Pela conversa deles, soube que estão casados há uns sete anos, que ele era viúvo, e que a filha que agora está em Filadélfia era a única filha do primeiro casamento.

“O Sr. Rucastle disse-me em particular que a filha foi embora devido à aversão que sentia pela madrasta, e, como a moça deve ter uns vinte anos, calculo como devia ser desagradável estar sempre na companhia da jovem esposa de seu pai.

“A sra. Rucastle pareceu-me mentalmente tão vaga quanto o seu rosto descorado.

“Ela não me impressionou nem bem nem mal. É uma nulidade, mas é fácil notar que está apaixonada pelo marido e pelo filho. Examina tudo para que não falte nada, e ele é bondoso para com ela, apesar de seu tom impetuoso; em tudo, parecem formar um casal feliz. Todavia, ela tem uma tristeza secreta, chora freqüentemente. Tenho pensado que é a má disposição do filhinho que lhe pesa, porque nunca vi criança tão mimada e mal-educada. É pequeno para a idade, a cabeça desproporcionalmente grande. E passa a vida entre acessos de paixão desabrida e um grande mau humor, maltratando a todos os que são mais fracos do que ele; esse parece ser o seu único passatempo, e demonstra talento extraordinário para apanhar ratinhos, pássaros e insetos. Mas prefiro não falar nessa criatura, que aliás tem pouca ligação com a minha história.”

— Gosto de todos os pormenores — observou o meu amigo —, mesmo quando pareçam de pouco relevo.

— Eu tentarei narrar o que é importante. A única coisa desagradável na casa, que chamou logo a minha atenção, é a aparência e a conduta dos empregados.

“São dois, marido e mulher. Toller é o nome do homem. É branco, tem cabelos e barba grisalhos, e cheira sempre a álcool. Por duas vezes, desde que lá estou, vi-o completamente bêbado; todavia, o sr. Rucastle parece não se incomodar com isso.

“A esposa é uma mulher forte, muito alta e carrancuda, tão calma como a Sra. Rucastie, mas muito menos amável. Um casal desagradável, mas felizmente passo a maior parte do meu tempo entre o quarto do menino e o meu, que se comunicam a um canto do edifício.

“Durante uns dois dias após a minha chegada, a vida decorreu calma, mas, no terceiro dia, a Sra. Rucastle desceu logo depois do almoço e cochichou qualquer coisa para o marido.

“— Oh, sim — disse ele virando-se para mim —, estamos-lhe muito gratos, Srta. Hunter, por ter acedido aos nossos gostos quanto ao cabelo cortado, e digo-lhe francamente que não diminuiu em nada sua boa aparência. Agora vamos ver se o vestido azul lhe serve; já está estendido sobre sua cama, e se fizesse o favor de vesti-lo, ficaríamos extremamente agradecidos.

“O vestido que encontrei à minha espera era de um tom especial de azul. Era de bom tecido, espécie de lã macia, e tinha sinais evidentes de ter sido usado. Caiu-me como se me tivessem tirado as medidas. Tanto o Sr. como a Sra. Rucastle expressaram alegria ao vê-lo, o que achei um tanto exagerado.

“Estavam à minha espera na sala, que é grande e se estende por toda a largura na frente da casa, com três janelas compridas até o chão. Uma cadeira tinha sido colocada de costas para a janela do centro. Pediram-me que me sentasse ali, e então o sr. Rucastle começou a contar-me histórias tão cômicas como jamais ouvi. Não podem imaginar como ele era engraçado, e eu ri até me cansar. A sra. Rucastle parece não ter senso de humor, nem sequer sorriu; ficou com as mãos no colo, com um olhar triste e expressão ansiosa.

“Passada uma hora mais ou menos, o Sr. Rucastle disse que era tempo de começar os afazeres do dia e que podia trocar o vestido e ir ao quarto do pequeno Edward.

“Dois dias depois, repetiu-se a mesma cena, e em circunstâncias iguais. Depois das anedotas, ele me entregou um romance de capa amarela e, virando minha cadeira um pouco de lado, para que minha sombra não caísse sobre a página, pediu-me que fizesse o favor de ler em voz alta para ele. Li durante oito ou dez minutos, começando no meio do capítulo, e, de repente, ele ordenou que eu parasse e fosse trocar de vestido. O senhor deve calcular como fiquei curiosa por saber por que razão se fazia aquele extraordinário espetáculo; reparei que procuravam sempre virar-me o rosto para a sala, e por isso eu me consumia com o desejo de saber o que acontecia atrás de mim; arrisquei uma olhadela, mas confesso que fiquei desapontada, pois não vi nada; porém, num segundo olhar, percebi que havia um homem na estrada para Southampton, de pequena estatura, barbado, olhando na minha direção. Há sempre gente naquela estrada, mas esse homem estava encostado à cerca que limita os nossos prados e olhava-me fixamente.

“Abaixei o lenço, olhei para a Sra. Rucastle e vi que ela estava com os olhos fixos em mim, com um olhar penetrante. Nada disse, mas estou convencida de que ela adivinhou que eu tinha um espelho no lenço e havia visto o que se passava atrás de mim. Levantou-se imediatamente.

“— Jefro — disse ela —, há um sujeito impertinente na rua que está olhando para a Srta. Hunter.

“— É um amigo seu, Srta. Hunter?

“— Não, não conheço ninguém por aqui.

“— Ora, veja que impertinência! Tenha a bondade de se virar e de lhe acenar para que vá embora.

“— Acho que seria melhor não lhe dar atenção.

“— Não, não, ele acabaria por vir aqui. Faça o favor de mandá-lo embora, sim?

“Fiz como me mandaram; no mesmo instante a Sra. Rucastle correu a cortina. Isso passou-se há uma semana, e desde então não mais me sentei junto à janela, nem pus o vestido azul. E nunca mais vi o homem na estrada.”

— Continue — disse Holmes. — Sua narrativa promete ser muito interessante.

— O senhor há de achá-la um tanto desconexa, e pode ser que haja pouca ligação entre os diversos episódios de que falo. No dia da minha chegada, o Sr. Rucastle levou-me a uma cocheira que fica perto da porta da cozinha; ao aproximar-me, ouvi o barulho de uma corrente sendo arrastada, como se fosse um animal grande movendo-se.

“— Ora, ora — disse o Sr. Rucastle —, não é bonito?

“Olhei para dentro e vi dois olhos grandes numa figura enrolada a um canto.

“— Não tenha receio — disse o meu patrão, rindo-se do susto que levei. — É Cario, meu cão de guarda. Eu disse meu, mas só Toller, meu velhaco cocheiro, é que pode com ele. Damos-lhe comida uma vez por dia, e mesmo assim não muita, para ele se manter esperto. Toller solta-o à noite, e Deus ajude o transgressor sobre quem ele pular e em quem enfiar os dentes. Não ponha o pé fora de casa à noite, seja qual for o motivo, pois pode lhe custar a vida.

“O aviso não foi em vão, porque duas noites depois, por acaso, fui à janela do meu quarto mais ou menos às duas horas da manhã; era uma noite linda, com luar, e a relva na frente da casa brilhava com o orvalho, tudo claro como de dia. De repente, vi um objeto movendo-se debaixo das faias, e, ao emergir, vi que era um cão gigante, tão grande como um bezerro, que atravessou vagarosamente o relvado e desapareceu do outro lado. Essa sentinela silenciosa fez-me gelar o coração.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

“E agora tenho uma experiência extraordinária para lhe contar. Como o senhor sabe, cortei o cabelo e guardava-o no fundo da minha mala. Uma noite, depois que a criança foi para a cama, ocupei-me a examinar a mobília do meu quarto e a arranjar meus pertences. Há uma velha cômoda, da qual as duas gavetas superiores estavam vazias, mas a grande, de baixo, permanecia fechada. Enchi as duas com a minha roupa, mas ainda faltava lugar para o resto, e fiquei aborrecida por não poder usar a outra gaveta. Achei que talvez a fechadura estivesse quebrada ou que tivesse sido fechada por acaso; por isso, peguei minhas chaves e experimentei abri-la; a primeira chave que usei serviu. Havia uma só coisa dentro, e o senhor não pode imaginar o que era. A minha trança. Peguei-a e examinei-a bem. Era da mesma cor e grossura. Mas então lembrei-me de que era uma coisa impossível. Como podia meu cabelo estar guardado na gaveta? Com as mãos trêmulas, abri a mala e virei o conteúdo: lá no fundo estava o meu cabelo. Juntei as duas tranças e olhei: eram idênticas. Que coisa estranha!

“Tornei a colocar o cabelo na gaveta e não disse nada aos Rucastles, julgando que tinha cometido um erro ao abrir a gaveta.

“Sou observadora por natureza, e não me custou habituar-me à casa. Há uma ala, que parece não ser habitada, que tem uma porta que se abre para os aposentos dos Tollers; comunica-se também com a parte social da casa, mas permanece sempre fechada. No entanto, um dia, quando subia a escada, vi o Sr. Rucastie saindo por aquela porta, de chaves na mão e um olhar que o fazia parecer uma pessoa muito diferente do homem jovial a que eu estava habituada. Tinha as faces vermelhas, a testa franzida de raiva e as veias nas têmporas inflamadas pela cólera. Fechou a porta e passou por mim apressadamente, sem uma palavra ou um olhar sequer.

“Isso despertou a minha curiosidade; portanto, quando fui passear com o menino, dei uma volta por aquele lado da casa. Havia quatro janelas em fila, três das quais estavam imundas e a quarta, tapada com tábuas. Aparentemente, estava tudo abandonado. Enquanto passeava de baixo para cima, o Sr. Rucastle veio ter comigo com os seus modos habituais, alegre e jovial.

“— Viva! — disse ele. — Desculpe-me ter passado diante da senhorita sem lhe falar. Estava muito ocupado com certos negócios.

“Asseverei-lhe que não levara a mal.

“— A propósito — disse eu —, parece haver ali umas salas que não são habitadas; uma está fechada com tábuas.

“— A fotografia é o meu passatempo, e tenho ali o meu quarto escuro. Ora, veja só como a senhorita é observadora. Quem diria!

“Falou como se estivesse brincando, mas não havia zombaria nos olhos dele quando olhou para mim. Vi suspeita e aborrecimento, mas nada de brincadeira.

“Bem, Sr. Holmes, desde aquele momento compreendi que havia qualquer coisa a respeito daqueles quartos que eu precisava saber, e fiquei curiosa por ir lá. Não era simples curiosidade, embora, naturalmente, tenha o meu quinhão dela; senti como que um dever… que algum benefício adviria do fato de eu ir lá. Falam do instinto feminino; talvez tenha sido isso o que me encheu desse sentimento. Esperei, portanto, uma ocasião para passar pela porta proibida.

“Só ontem me apareceu a oportunidade. Toller e sua mulher vão sempre lá, e uma vez vi-o carregar para lá um saco de roupa. Ultimamente ele tem estado sempre bêbado, e ontem também isso se deu.

“Quando subia a escada, vi que a chave estava na porta: ele a havia esquecido. Os Rucastles estavam no andar térreo, e o garoto com eles. Girei a chave e entrei; havia um corredorzinho à minha frente, sem papel nas paredes e sem tapete no chão; esse corredor dava uma volta em ângulo para a direita. Virando o corredor havia três portas em fila; a primeira e a terceira estavam abertas, cada uma dando entrada para um quarto vazio, empoeirado e desconfortável; num desses compartimentos havia duas janelas, e no outro, uma só, tão sujas que mal permitiam a entrada da luz.

“A porta do meio estava fechada, atravessada do lado de fora por uma larga barra de ferro e fechada a cadeado de um lado. Na outra extremidade estava amarrada por uma corda grossa. A porta estava trancada, mas não havia chave ali. Essa porta correspondia à janela tapada; todavia, percebi por uma fraca luz que vinha por baixo da porta que o quarto não se encontrava de todo às escuras. Evidentemente, havia uma clarabóia de onde vinha essa luz. Enquanto estava no corredor, imaginando que segredo havia atrás daquela porta sinistra, ouvi de repente passos no quarto e vi uma sombra que ia e vinha. Um terror enlouquecedor se apossou de mim ao constatá-lo, Sr. Holmes. Meus nervos, já abalados, falharam de repente, virei-me e corri como se a mão de alguém me segurasse por trás e me puxasse o vestido. Corri pelo corredor e pela porta diretamente para os braços do Sr. Rucastle, que estava à espera do lado de fora.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

“— Ah, então era você — disse ele, sorrindo. — Foi o que pensei quando vi a porta aberta.

“— Oh, estou com tanto medo! — murmurei, ofegante.

“— Então! Então! — E o senhor não imagina como era carinhosa a sua voz. — O que foi que a assustou?

“Mas a voz dele era adocicada demais, e fiquei prevenida contra ele.

“— Eu, como uma tola, fui à ala vazia, mas é tão solitária e triste, com aquela luz fraca, que me assustei e saí de lá correndo. Oh, é tão silencioso ali!

“— Só isso? — inquiriu, olhando-me com agudeza.

“— Por quê? O que é que o senhor está pensando? — perguntei-lhe.

“— Por que razão acha a senhorita que fecho esta porta?

“— Não sei dizer.

“— É para evitar que pessoas que não têm esse direito entrem lá. Ouviu?

“Ainda sorria do modo mais amável.

“— Se eu soubesse…

“— Bem, agora sabe, e se puser de novo os pés além do limiar dessa porta… — Então o sorriso transformou-se num arreganhar de dentes, e ele fitou-me com um olhar de demônio: — Eu a atiro ao cão de guarda.

“Fiquei tão amedrontada que não sabia o que fazer. Arremessei-me para dentro do meu quarto, passando por ele sem olhá-lo, e não me lembro de mais nada até que me achei em minha cama, tremendo da cabeça aos pés. Depois lembrei-me do senhor; não podia continuar vivendo lá sem procurar um conselho. Tenho medo do homem, da mulher, dos empregados e até da criança. São horríveis, a meu ver. Se pudesse levar o senhor até lá, tudo estaria bem. É verdade que eu podia ter fugido da casa, mas minha curiosidade era quase tão grande quanto o medo. Logo, decidi-me e mandei-lhe um telegrama. Pus o chapéu e a capa, desci até a agência telegráfica que fica a menos de um quilômetro da casa, e no regresso senti-me muito aliviada. Um medo terrível me sobreveio quando me lembrei de que talvez o cão estivesse solto, mas também me lembrei de que Toller estava sem sentidos, de tão bêbado, e sabia que ele era o único que tinha o domínio sobre aquela besta selvagem, ou que se atreveria a soltá-la. Entrei sem problemas e fiquei acordada parte da noite, sentindo alívio só em pensar que o senhor viria. Não se opuseram a que eu viesse a Winchester agora de manhã, mas preciso voltar antes das quinze horas, porque o Sr. e a Sra. Rucastle vão sair para fazer visitas. Estarão fora até tarde e tenho de ficar com a criança. Agora que lhe contei minhas aventuras, Sr. Holmes, daria muito para que o senhor me pudesse dizer o que significa tudo isto, e, acima de tudo, o que devo fazer.”

Holmes e eu ficamos boquiabertos com aquela história extraordinária. Meu amigo levantou-se e andou de um lado para outro na sala, de mãos nos bolsos e com uma expressão de gravidade no rosto.

— Toller ainda está bêbado? — perguntou ele.

— Sim, ouvi sua mulher dizer à Sra. Rucastle que não pode fazer nada com ele.

— Está bem. Então os Rucastles sairão hoje à noite?

— Sim.

— Há uma adega com uma boa fechadura?

— Sim, onde se guarda o vinho.

— Agiu como uma jovem corajosa e ajuizada, Srta. Hunter. Seria capaz de fazer mais uma coisa? Não o pediria se não soubesse que a senhorita tem uma coragem excepcional.

— Tentarei. O que é?

— Chegaremos às Faias pelas dezenove horas. Os Rucastles terão saído, e Toller, esperamos, ainda estará incapaz de agir. Há só a Sra. Toller, que poderia dar o alarme. Se pudesse mandá-la para a adega sob qualquer pretexto e trancá-la lá, facilitaria muito as coisas.

— Eu o farei.

— Excelente. Então investigaremos o caso. Há só uma explicação. A senhorita foi trazida aqui para representar o papel de alguém, e essa pessoa está fechada naquele quarto. É evidente. Quanto a quem é esse prisioneiro, não tenho a menor dúvida de que se trata da Srta. Alice Rucastle, que dizem ter ido para a América. A senhorita foi escolhida por se parecer com ela na altura e na cor do cabelo. O dela havia sido cortado, talvez por causa de qualquer doença, por isso o seu devia ser sacrificado também. Foi um milagre que tenha encontrado a trança dela. O homem na estrada sem dúvida deve ser algum amigo dela, possivelmente noivo, mas como você usava o vestido dela e se lhe assemelhava tanto, ele deve ter se convencido, pelas suas risadas e pêlos seus gestos, de que a Srta. Rucastie estava contente e já não queria suas atenções. O cão é solto à noite para que não possa haver qualquer comunicação com ela. Tudo isto está claro. A coisa mais séria é a disposição da criança.

— Que tem uma coisa a ver com a outra? — exclamei.

— Meu caro Watson, você é médico, e constantemente adquire conhecimentos sobre uma criança estudando os pais… o reverso é igualmente válido. A disposição dessa criança é excessivamente cruel, e isso deriva do seu sorridente pai ou, como suspeito, da mãe, o que é um mal presságio para a pobre jovem que está em seu poder.

— Tenho certeza de que o senhor tem razão, Sr. Holmes — exclamou a nossa cliente. — Mil coisas me fazem crer nisso. Oh, não percamos um momento em socorrer essa pobre criatura.

— Mas precisamos ser prudentes, pois estamos lidando com um grande velhaco. Não se pode fazer nada até às dezenove horas. Então estaremos lá, e em pouco tempo resolveremos o mistério.

Chegamos, como havíamos prometido, justamente às dezenove horas, tendo deixado a nossa carruagem na taberna da estrada.

Pelas folhas das faias, que brilhavam como metal à luz do sol poente, teríamos reconhecido a casa mesmo que a Srta. Hunter não nos esperasse sorridente à porta.

— Arranjou tudo? — perguntou Holmes.

Ouviu-se uma pancada ruidosa, vinda de lá de baixo.

— É a Sra. Toller, na adega; o marido dela está roncando no tapete da cozinha. Aqui estão as chaves dele, que são iguais às do Sr. Rucastle.

— Muito bem! — exclamou Holmes com entusiasmo.

— Agora mostre-nos o caminho, e depressa veremos o fim deste problema.

Subimos, abrimos a porta e atravessamos o corredor até a porta que a Srta. Hunter indicou.

Holmes cortou a corda e removeu a barra de ferro. Depois experimentou as várias chaves na fechadura, mas sem efeito. Não se ouvia um som sequer vindo de lá de dentro, e aquele silêncio provocou uma nuvem de desapontamento na fisionomia de Holmes.

— Espero que não tenhamos chegado tarde demais — disse ele. — Julgo que devemos entrar antes que a jovem morra. Agora, Watson, ombros à porta, vamos ver se entramos já.

Era uma porta velha, que cedeu logo à nossa força unida. Juntos, corremos para dentro do quarto. Estava vazio. A única mobília que ali havia era uma caminha, uma mesinha e uma cesta de roupa. O quarto estava vazio, a clarabóia, aberta, e a prisioneira tinha fugido.

— Houve algo de mau aqui. Aquele bruto adivinhou as intenções da Srta. Hunter e carregou sua vítima.

— Mas como?

— Pela clarabóia. Já veremos como ele o fez.

E subiu para o telhado.

— Ah! Aqui está a ponta de uma escada, perto da calha.

— Mas é impossível, a escada não estava aqui quando os Rucastles saíram — disse a Srta. Hunter.

— Ele deve ter voltado para colocá-la. Digo-lhe que é astuto e perigoso. Não me surpreenderia se ouvisse seus passos subindo a escada. Creio, Watson, que deve ter o seu revólver preparado.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

Mal ele falou, apareceu à porta do quarto um homem gordo e abrutalhado, com um pau pesado na mão. A Srta. Hunter gritou e encostou-se à parede ao vê-lo, mas Sherlock Holmes deu um pulo e enfrentou-o.

— Canalha — disse —, onde está sua filha?

O homem olhou ao redor e depois para a clarabóia.

— Eu é que devo perguntar-lhe isso — gritou ele.

— Ladrões! Espiões e ladrões! Apanhei-os em flagrante! Estão em meu poder. Hão de pagar por isto!

Nisso, desceu as escadas ruidosamente e tão depressa quanto pôde.

— Ele foi soltar o cão! — exclamou a Srta. Hunter.

— Tenho o meu revólver — respondi.

— É melhor fechar a porta — disse Holmes —, e vamos descer todos juntos.

Mal chegamos ao vestíbulo, ouvimos o ladrar de um cão e depois um grito de agonia e um horrível barulho de algo sendo rasgado. Um homem de idade, com o rosto vermelho e cambaleando, saía de uma porta lateral.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

— Meu Deus! — gritou ele. — Alguém soltou o cão, e ele não come nada há dias. Depressa, depressa, ou será tarde demais.

Holmes e eu saímos correndo até o ângulo da casa, com Toller atrás de nós. Lá estava o bruto esfomeado, com o focinho enterrado na garganta de Rucastle, que se torcia e gritava no chão. Quando cheguei perto, fiz saltar os miolos do cão; ele caiu, mas com os dentes ainda presos às dobras do pescoço do homem.

Depois de algum trabalho, conseguimos livrá-lo e levá-lo para dentro de casa, deitando-o no sofá. Mandamos que Toller, cuja bebedeira já havia passado, fosse avisar a mulher. Fiz o que pude para aliviar as dores de Rucastle.

Estávamos todos ao redor dele quando a porta se abriu, dando entrada a uma mulher alta e magra.

— Sra. Toller! — exclamou a Srta. Hunter.

— Sim, senhora. O sr. Rucastle soltou-me antes de subir atrás de vocês. Ah, senhorita, que pena não me ter contado o que planejava fazer, porque eu lhe diria que estava perdendo o seu tempo.

— Ah! — exclamou Holmes olhando fixamente para ela. — É evidente que a Sra. Toller sabe mais deste caso do que qualquer outra pessoa.

— Sim, senhor, sei e estou pronta a contar tudo.

— Então faça o favor de se sentar e vamos ouvi-la! Há diversos pontos que, confesso, ainda não consegui compreender.

— Já contarei, e tê-lo-ia feito antes se pudesse sair da adega. Se for caso de polícia, não se esqueça de que sou sua amiga e da Srta. Alice também. Ela nunca estava contente em casa, desde que o pai se casou de novo. Faziam pouco-caso dela e nunca lhe permitiam dizer nada, mas sua vida piorou muito depois que conheceu o Sr. Fowler em casa de uns amigos. Sei que a srta. Alice herdara alguma coisa com todos os direitos, mas era tão calma e paciente que nunca fez objeção alguma e deixava tudo nas mãos do Sr. Rucastle. Ele sabia que podia fazer o que quisesse do que lhe pertencia, mas quando apareceu um casamento e viu que o marido viria a exigir que tudo passasse para as suas mãos, achou melhor acabar com o assunto. Queria que ela assinasse um papel, para que, casada ou não, ele pudesse utilizar-se do dinheiro dela. Atormentou-a tanto com o assunto, até que ela teve uma febre que lhe atacou a cabeça e ficou às portas da morte durante umas seis semanas. Finalmente melhorou. Estava magra como uma sombra e com os cabelos cortados, mas, apesar de tudo isso, o jovem não desistiu, continuando-lhe fiel.

— Ah! — disse Holmes —, creio que o que nos acaba de contar esclarece bem as coisas, e já posso deduzir o resto. O Sr. Rucastle, então, empregou este sistema de prisão?

— Sim, senhor.

— E trouxe a Srta. Hunter de Londres para ver se acabava com a desagradável persistência do Sr. Fowler.

— Foi isso mesmo, senhor.

— Mas o Sr. Fowler, sendo homem perseverante, como todo marinheiro deve ser, bloqueou a casa e, tendo-se encontrado com a senhora, conseguiu com certos argumentos, em moeda sonante ou não, convencê-la de que seus interesses e os dele eram os mesmos.

— O Sr. Fowler é um cavalheiro bondoso e generoso — disse a Sra. Toller calmamente. — E desse modo conseguiu que seu marido não bebesse mais e fosse arranjar uma escada para ser utilizada logo que o Sr. Rucastle saísse.

— Sim, senhor, foi assim mesmo.

— Estou certo de que devemos pedir-lhe desculpas, Sra. Toller — disse Holmes —, porque acaba de esclarecer muito bem tudo o que era enigmático para nós. E agora estão chegando o médico e a Sra. Rucastle. Portanto, Watson, creio que é melhor acompanharmos a Srta. Hunter até Winchester, pois julgo que nossa presença aqui torna-se desnecessária; o caso passou das nossas mãos para outras.

E assim foi resolvido o mistério da casa sinistra das Faias Cor de Cobre. O Sr. Rucastle melhorou, mas ficou tão alquebrado que somente continuou a viver devido aos cuidados de sua devotada mulher.

Moram ainda com os mesmos velhos empregados, que provavelmente sabem tanto da vida passada de Rucastie que ele acha melhor não os dispensar.

O Sr. Fowler casou-se com a Srta. Rucastle em Southampton, no dia do rapto. Agora é representante do governo nas ilhas Maurício.

Quanto à Srta. Violet Hunter, para meu desapontamento, meu amigo Holmes não se interessou mais por ela uma vez terminadas as investigações daquele caso.

Ela agora é diretora de uma escola particular em Walsall, onde, creio, se sente muito bem.

1892
As aventuras de Sherlock Holmes

1. Um escândalo na Boêmia § 2. A liga dos cabeças vermelhas
3. Um caso de identidade § 4. O mistério do vale Boscombe
5. As cinco sementes de laranja § 6. O homem da boca torta
7. O carbúnculo azul § 8. A faixa malhada
9. O polegar do engenheiro § 10. O solteirão nobre
11. A coroa de berilos § 12. As faias cor de cobre

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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