O homem que andava de rastos

Arthur Conan Doyle

O homem que andava de rastos

Título original: The Creeping Man
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Março de 1923, com 5 ilustrações de Howard K. Elcock
e na Hearst´s International Magazine em Março de 1923
com 6 ilustrações de Frederic Dorr Steele.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Creeping Man publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VII,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

O sr. Sherlock Holmes foi sempre de opinião que eu devia publicar os estranhos fatos relacionados com o professor Presbury, com o objetivo de destruir de uma vez por todas os boatos que, há uns vinte anos atrás, agitaram a universidade e repercutiram nos círculos científicos de Londres. Havia, contudo, alguns obstáculos no caminho, e a autêntica história desse curioso caso permaneceu encerrada na caixa de estanho que contém tantos relatos de aventuras do meu amigo. Agora, finalmente, obtivemos permissão para ventilar os fatos que constituíram um dos últimos casos de que Holmes se incumbiu antes de deixar suas atividades. Mas, mesmo agora, têm de se manter certas reticências e certa discrição ao se expor o caso diante do público.

Numa tarde de domingo, no princípio de novembro do ano de 1903, recebi mais uma das lacônicas mensagens de Holmes:

“Venha imediatamente, se não for incômodo; se for, venha da mesma forma.

S. H.”

As relações entre nós, naqueles últimos tempos, eram muito especiais. Ele era um homem de hábitos restritos e concentrados, e eu me tornara um desses hábitos. Na qualidade de instituição, eu era como o violino, o tabaco forte, o velho cachimbo preto, os livros de índice, e outras tantas coisas talvez menos desculpáveis. Quando se tratava de um caso de trabalho ativo e se precisava de um companheiro com cujos nervos ele podia contar, eu entrava inevitavelmente em cena. Mas afora isso, eu tinha os meus préstimos. Era o atiçador do seu intelecto. Estimulava o detetive. Ele se comprazia em pensar alto na minha presença. A rigor, não se podia dizer que as suas observações fossem feitas para mim (dir-se-ia que muitas delas eram antes endereçadas à cabeceira da sua cama), mas, sem dúvida, uma vez adquirido o hábito, tornara-se de certo modo proveitoso eu intervir com os meus comentários. Se eu o irritava com uma certa morosidade sistemática do meu modo de pensar, essa irritação até servia para fazer com que as suas próprias intuições e impressões, de si já tão brilhantes, cintilassem ainda com mais vivacidade e rapidez. Era esse o meu modesto papel na nossa aliança.

Ao chegar à Baker Street, encontrei-o encolhido na sua cadeira de braços, com os joelhos erguidos, o cachimbo na boca e um largo sulco na fronte cismadora. Era evidente que algum angustioso problema lhe atazanava o espírito. Com um aceno de mão, indicou a minha velha cadeira de braços, mas, exceto isso, durante meia hora não deu qualquer indício de ter notado a minha presença ali. Então, com um estremecimento do corpo, pareceu despertar do seu devaneio, e com o habitual sorriso excêntrico, deu-me as boas-vindas por me ver de regresso àquela casa que já tinha sido o meu lar.

— Há de me desculpar uma certa abstração de espírito, meu caro Watson — disse ele. — Contudo, foram submetidos à minha apreciação alguns fatos curiosos, que, nas últimas vinte e quatro horas, deram por sua vez origem a algumas especulações de caráter mais geral. Tenho pensado seriamente em escrever uma pequena monografia a respeito da utilidade dos cães no trabalho do detetive.

— Mas isso, Holmes, já é assunto explorado — disse eu. — Cães policiais…

— Não, Watson, não. Esse aspecto do assunto é naturalmente conhecido. Mas existe outro muito mais sutil. Deve se recordar de que, no caso que você, no seu estilo sensacional, associou às Copper Beeches, eu consegui, observando o espírito da criança, formular uma dedução relativa aos hábitos criminosos do pai, burguês de respeito.

— Sim, lembro-me muito bem.

— O curso das minhas idéias relativamente aos cães é análogo. O cão reflete a vida da família. Onde é que já se viu um cão espevitado numa família sorumbática, ou um cão tristonho numa família jovial? Gente rabugenta tem cães rosnadores, gente perigosa tem cães perigosos. E as disposições de espírito passageiras destes talvez reflitam as disposições passageiras dos seus donos.

Abanei a cabeça.

— Há de convir, Holmes, que isso é um pouco forçado.

Ele tornara a encher o cachimbo e sentou-se direito, sem tomar conhecimento do meu comentário.

— A aplicação prática do que acabo de dizer prende-se intimamente ao problema que estou investigando. A meada, como vai ver, tem muitas voltas, e ando à procura do fio que provavelmente está na seguinte pergunta; por que é que Roy, o fiel cão do professor Presbury, tem tentado mordê-lo?

Enterrei-me na minha cadeira, um tanto desapontado. Então era por uma questão tão trivial que tinham me arrancado do meu trabalho? Holmes olhou-me de esguelha.

— Sempre o mesmo Watson! — disse ele. — Você não se convence de que as mais graves questões podem depender das menores coisas. Diga-me: é ou não é estranho que um sisudo filósofo, homem de certa idade (você decerto já conhece Presbury de nome, o famoso fisiologista de Camford), cujo cão se tem mostrado seu dedicado amigo, haja agora sido atacado duas vezes pelo seu próprio animal? Que diz a isso?

— O cão está doente.

— Bem, isso tem de ser levado em conta. Mas o animal não ataca ninguém mais, nem consta que incomode o dono a não ser em ocasiões muito especiais. Curioso, Watson, muito curioso. Mas o jovem sr. Bennett se antecipou, se é que é ele que está tocando a campainha. E eu, que esperava poder conversar longamente com você antes que ele chegasse…

Ouviram-se passos rápidos na escada, uma forte pancada na porta, e logo o novo cliente surgiu diante de nós. Era um homem alto e simpático, dos seus trinta anos, elegantemente vestido, mas com qualquer coisa na atitude que mais fazia pensar no acanhamento de um estudante do que na calma de um homem de sociedade. Apertou a mão de Holmes e depois olhou para mim um pouco surpreso.

— O assunto é bastante delicado, sr. Holmes — disse ele. — Basta considerar as minhas relações com o professor Presbury, tanto em particular como em público. Na verdade, eu dificilmente poderia me justificar se falasse disso diante de uma terceira pessoa.

— Não tenha receio, sr. Bennett. O dr. “Watson é a própria discrição, e posso lhe assegurar que é um assunto no qual é provável que eu venha a precisar de um ajudante.

— Como quiser, sr. Holmes. Estou certo de que compreenderá o motivo desta minha reserva sobre o assunto.

— Você, Watson, poderá compreendê-la bem quando eu lhe disser que este cavalheiro, o sr. Trevor Bennett, é assistente profissional do grande cientista, em cuja casa reside, e é noivo de sua filha única. Certamente, temos de concordar em que o professor tem todo o direito à sua lealdade e dedicação. Mas a coisa se tornará mais patente se entrarmos logo no assunto, a fim de esclarecer esse mistério tão estranho.

— Assim o espero, sr. Holmes. Não é outro o meu intento. O dr. Watson conhece a situação?

— Não tive tempo de lhe explicar.

— Então talvez seja melhor eu recapitular os fatos antes de acrescentar algum ponto mais recente.

— Eu me incumbirei disso — disse Holmes —, a fim de provar que tenho os acontecimentos na devida ordem. O professor, Watson, é homem de reputação européia. A sua vida tem sido acadêmica. Jamais pairou perto dele a sombra de um escândalo. É viúvo e tem uma filha, Edith. De acordo com informações por mim colhidas, é homem de caráter viril e positivo, e quase se poderia dizer combativo. Assim eram as coisas até alguns meses atrás.

“Então o curso da sua vida sofreu uma interrupção. Apesar de seus sessenta e um anos, ficou noivo da filha do professor Morphy, seu colega na cadeira de anatomia comparada. Segundo estou informado, não se tratou de um galanteio ponderado de um homem de idade, mas antes do delírio apaixonado de um jovem, pois ninguém seria capaz de se mostrar amante mais devotado. A noiva, Alice Morphy, era uma jovem prendada tanto física como moralmente, circunstância que justificava perfeitamente o entusiasmo que ela inspirou ao professor. Sem dúvida, esse namoro não recebeu plena aprovação da família do próprio professor Presbury.

— Julgamos essa paixão um tanto excessiva — comentou o nosso visitante.

— Isso mesmo. Excessiva e um pouco violenta e forçada. Contudo, o professor Presbury é rico, e não havia objeção da parte do pai. Quanto à filha, ela tinha outros planos, e pretendentes não lhe faltavam, os quais, se eram menos cotados sob o ponto de vista das conveniências sociais, não tinham contra si a diferença de idade. A jovem parecia gostar do professor, apesar das suas excentricidades. O único óbice era a idade.

“Por essa época, um ligeiro mistério estendeu de repente uma sombra sobre a pacata existência do professor. Ele fez uma coisa que antes nunca fizera. Saiu de casa sem deixar nenhuma indicação de seu destino. Esteve ausente durante duas semanas, e ao voltar apresentava sinais de cansaço. Não disse uma palavra sobre o lugar onde estivera, embora fosse em geral um homem muito expansivo. Entretanto, aconteceu que o nosso cliente, o sr. Bennett, recebeu casualmente uma carta de um condiscípulo de Praga, em que este exprimia a sua satisfação por ter visto o professor naquela cidade, embora não tivesse podido falar com ele. Só dessa maneira é que as pessoas da casa souberam onde Presbury tinha estado.

“Agora é que entra o ponto principal. Dessa época em diante, operou-se no professor uma curiosa mudança. Ele se tornou esquivo e dissimulado. As pessoas das suas relações tinham sempre a impressão de que ele já não era o homem que elas tinham conhecido, que havia alguma sombra que lhe obscurecia as altas qualidades. A inteligência não fora afetada. Suas preleções eram brilhantes como sempre. Mas havia algo de novo, de sinistro, de inesperado. A filha, que lhe dedicava grande afeição, redobrou os esforços para fazê-lo voltar ao que era ou ao menos para retirar aquela máscara que o pai parecia ter afivelado nas feições. O cavalheiro aqui presente, conforme chegou ao meu conhecimento, fez o mesmo, mas tudo em vão. E agora, sr. Bennett, conte com suas próprias palavras o episódio das cartas.

— Devo informá-lo, dr. Watson, que o professor não tinha segredos para mim. Se eu fosse seu filho ou seu irmão mais novo, não poderia gozar de mais confiança do que gozava. Na qualidade de seu secretário, passavam pelas minhas mãos todos os papéis que chegavam para ele. Era eu que abria e separava as cartas. Pouco depois do seu regresso, tudo mudou. Ele me disse que era possível que viessem de Londres certas cartas que trariam como marca uma cruz logo abaixo do selo. Elas teriam que ser postas de parte, pois só ele deveria lê-las. O que posso dizer é que várias destas cartas passaram pela minhas mãos, traziam a marca E.C.[1] e eram escritas em péssima letra. Se o professor respondeu a essas cartas, as respostas não passaram pelas minhas mãos nem foram depositadas no cesto de cartas onde se juntava toda a nossa correspondência.

— E a caixa? — lembrou Holmes.

— Ah, é verdade. Ao voltar das suas viagens, o professor trouxe uma pequena caixa de madeira. Foi a única coisa que sugeria a idéia de que tivesse viajado pelo continente, porque a caixinha é um desses objetos curiosamente lavrados que logo nos trazem à lembrança a Alemanha. Colocou-a no armário onde estão os seus instrumentos. Um dia, procurando uma cânula, peguei a caixa. Para surpresa minha, ele se mostrou muito zangado e, com palavras desabridas, censurou a minha curiosidade. Era a primeira vez que tal coisa acontecia, e fiquei profundamente magoado. Esforcei-me por explicar que pegara aquela caixa por mero acaso, mas durante toda a tarde reparei que me olhava com ar carrancudo e que o incidente não lhe saía da memória, tendo-o irritado muito. — Aqui, o sr. Bennett tirou do bolso uma pequena agenda. — Isso foi a 2 de julho — acrescentou.

— O senhor é certamente uma testemunha ideal — disse Holmes. — Posso vir a precisar de algumas dessas datas que o senhor tão cuidadosamente assentou no seu diário.

— Do meu grande mestre aprendi, entre outras coisas, a observar método em tudo. Desde a época em que notei certo desequilíbrio no seu procedimento, senti que era meu dever estudar o caso. Assim, tenho anotado que foi nesse mesmo dia, 2 de julho, que Roy atacou o professor, quando ele saía do seu gabinete para o vestíbulo. Em 11 de julho, deu-se novamente uma cena semelhante, e trago aqui apontado que a mesma coisa se reproduziu no dia 20. Depois disso, tivemos que mandar o cão para o estábulo. Roy era um animal muito afeiçoado a todos nós… Mas receio fatigá-lo.

O sr. Bennett disse essas últimas palavras em tom de censura, porque era evidente que Holmes não lhe prestava atenção. Seu rosto estava rígido, e os olhos fitavam distraidamente o teto. Com um esforço, conseguiu concentrar de novo a atenção.

— Estranho! Muito estranho! — murmurou. — Esses pormenores são novos para mim, sr. Bennett. Creio que já dispomos agora de dados inéditos, não é verdade? Mas o senhor disse que ia acrescentar episódios mais recentes.

A fisionomia agradável e aberta do nosso visitante anuviou-se, naturalmente com alguma recordação triste.

— O que vou narrar passou-se há duas noites — disse ele. — Eu estava deitado mas desperto, por volta das duas horas da madrugada, quando notei um som abafado que vinha do corredor. Abri a porta do meu quarto e espiei. Devo explicar que o professor dorme no fim do corredor…

— E a data?… — indagou Holmes.

Nosso visitante aborreceu-se visivelmente com essa interrupção tão impertinente.

— Eu disse que o fato se deu há duas noites, isto é, a 4 de setembro.

Holmes aprovou com a cabeça e sorriu.

— Queira continuar — disse.

— Ele dorme no fim do corredor, e tinha de passar diante de minha porta a fim de alcançar a escada. Foi um espetáculo verdadeiramente constrangedor, sr. Holmes. Creio que tenho os nervos em ordem, como qualquer pessoa normal, mas fiquei abalado com o que vi. O corredor estava escuro; apenas uma janela, localizada mais ou menos no meio dele, projetava uma réstia de luz. Pude ver que alguma coisa vinha avançando pelo corredor, uma coisa preta e encolhida. E eis que de repente essa coisa penetrou na claridade, e vi que era ele. Andando de rastos, sr. Holmes…de rastos! Não se arrastava propriamente sobre as mãos e os joelhos. Eu diria antes que caminhava sobre as mãos e os pés, com o rosto enterrado entre as mãos. No entanto, parecia mover-se com desembaraço. Tão fulminado me senti com o que via que só quando ele ia passar pela minha porta é que consegui dar um passo em frente e perguntar-lhe se podia ajudá-lo. Sua resposta foi extraordinária. Pôs-se de pé num pulo, pronunciou um palavrão atroz e passou por mim como um raio, desaparecendo na escada, que desceu a toda a pressa. Esperei mais ou menos uma hora, mas ele não voltou. Deve ter regressado ao quarto já ao raiar do dia.

— Então, Watson, que diz a isso? — perguntou Holmes, com o ar do patologista que apresenta um espécime raro.

— Lumbago, provavelmente. Sei de um caso grave que obrigou um homem a caminhar exatamente desse modo, e não pode haver nada que ponha uma pessoa mais nervosa.

Bravo, Watson! Tem resposta para tudo. Mas dificilmente poderemos acreditar em lumbago, uma vez que Presbury pôde pôr-se de pé num instante.

— O homem nunca esteve melhor de saúde — disse Bennett. — Podem acreditar em mim: conheço-o há anos, e nunca o vi tão bem-disposto. Mas os fatos aí estão, sr. Holmes. Não se trata de um caso em que possamos consultar a polícia, e todavia não temos a mínima idéia do que nos compete fazer, e aflige-nos o pressentimento de que está iminente uma catástrofe. Edith, quer dizer, a srta. Presbury, é, como eu, de opinião que já não devemos aguardar passivamente.

— Não há a menor dúvida de que estamos diante de um caso muito curioso e sugestivo. Que pensa você a este respeito, Watson?

— Falando como médico — disse eu —, parece ser um caso para um psiquiatra. Os processos cerebrais desse homem idoso sofreram um distúrbio por causa da aventura amorosa em que se meteu. O professor viajou na esperança de se libertar da paixão. As cartas e a caixa podem ter relação com qualquer outra transação privada… um empréstimo, talvez, ou certificados de títulos que estão na caixa.

— E o cão sem dúvida reprovou a transação financeira. Não, não, Watson, nessa história há mais do que isso. E o que posso sugerir…

O que Sherlock Holmes ia sugerir jamais será conhecido, porque naquele momento a porta se abriu, e uma jovem surgiu na sala. Quando ela surgiu no limiar, o sr. Bennett levantou-se imediatamente com uma exclamação e correu, com as mãos estendidas, ao encontro da recém-chegada, que também lhe estendia as suas.

— Edith querida! Espero que não haja nenhuma novidade…

— Tive de vir à sua procura. Oh, Jack, fiquei com tanto medo! É horrível ficar lá sozinha.

— Sr. Holmes, esta é a jovem de quem falei. É a minha noiva.

— Pouco a pouco, íamos chegando a essa conclusão, não é verdade, Watson? — disse Holmes, com um sorriso.

— Suponho, srta. Presbury, que haja algum novo aspecto no caso que achou conveniente trazer ao nosso conhecimento. Não é assim?

A nossa nova visitante, uma jovem simpática, de um tipo inglês convencional, retribuiu o sorriso de Holmes enquanto se sentava ao lado do sr. Bennett.

— Quando verifiquei que o sr. Bennett não estava no hotel, calculei que poderia encontrá-lo aqui. É claro que ele tinha me dito que viria consultá-lo. Mas, oh, sr. Holmes, será que não pode fazer nada pelo meu pobre pai?

— Tenho algumas esperanças, srta. Presbury, mas o caso ainda está um pouco obscuro. Talvez o que a senhorita traz lance uma nova luz sobre o assunto.

— Foi a noite passada, sr. Holmes. Meu pai tinha estado muito esquisito o dia todo. Estou certa de que em algumas ocasiões ele não se recorda do que faz. Vive num estranho sonho. Ontem foi um desses dias. Não era meu pai a pessoa com quem eu estava vivendo. O invólucro exterior estava ali, mas não era ele realmente.

— Conte-me o que aconteceu.

— Acordei de noite com o cão ladrando furiosamente. O pobre Roy agora está amarrado à corrente, perto do estábulo. Durmo sempre com a porta do meu quarto fechada à chave, porque, como Jack, isto é, como o sr. Bennett poderá lhe dizer, temos todos um pressentimento de desgraça iminente. Meu quarto fica no segundo andar. Aconteceu que o estore da minha janela estava suspenso, e havia luar. Enquanto eu, deitada, tinha os olhos fixos no feixe de luz, escutando o ladrar frenético do cão, fiquei assombrada ao ver o rosto do meu pai, olhando para mim. Sr. Holmes, quase morri de susto e de horror. Lá estava ele, seu rosto, colado à vidraça, e uma das mãos parecia erguer-se como que para abrir a janela. Se ela tivesse sido aberta, creio que eu teria enlouquecido. Não era ilusão, sr. Holmes. Não vá pensar que acredito em fantasmas. Ouso dizer que, durante uns vinte segundos mais ou menos, fiquei paralisada, olhando para aquele rosto. Então o rosto desapareceu, mas faltou-me ânimo para saltar da cama e seguir meu pai. Continuei deitada, gelada, tremendo até de manhã. Quando nos encontramos para a primeira refeição, ele se mostrou desabrido e rude, sem fazer qualquer alusão à aventura da noite. Eu também não toquei no assunto, mas, dando uma desculpa, vim à cidade e dirigi-me para cá.

Holmes pareceu muito surpreso com a narrativa da srta. Presbury.

— Minha cara, diz então que seu quarto fica no segundo andar. Existe no jardim alguma escada de mão?

— Não, sr. Holmes; aí é que o assombro culmina. Não há possibilidade de se alcançar a janela, e contudo meu pai chegou lá.

— E a data foi 5 de setembro — comentou Holmes. — Isso certamente complica a questão.

Então quem se surpreendeu foi a jovem.

— É a segunda vez que o senhor alude à data, sr. Holmes — disse Bennett. — Será possível que isso tenha alguma relação com o caso?

— É possível, muito possível, e no entanto, presentemente, não disponho de todos os dados de que preciso.

— Quem sabe o senhor está pensando na relação entre a loucura e as fases da Lua?

— Não, pode ficar certo de que não é isso. O curso das minhas idéias vai bem além desse ponto. Creio que não porá objeção em deixar comigo sua agenda, para que eu possa me orientar quanto às datas. Agora creio, Watson, que nosso rumo já está bastante claro. Esta jovem acaba de nos informar (e tenho a maior confiança na intuição dela) que seu pai pouco ou nada se lembra do que sucede em certos dias. De modo que iremos a sua casa, como se ele nos tivesse marcado uma entrevista em tal data. Ele deve considerar a coisa como falta de memória de sua parte. E assim iniciaremos nossa campanha, observando-o de perto.

— Excelente idéia — disse o sr. Bennett. — Previno-o, entretanto, de que o professor às vezes é irascível e violento.

Holmes sorriu.

— Há razões para irmos imediatamente, razões prementes, se é que minhas teorias têm uma boa base. Amanhã, sr. Bennett, estaremos com toda a certeza em Camford. Lá existe, se bem me lembro, uma estalagem chamada Tabuleiro de Xadrez, onde o porto é acima do medíocre e o asseio, irrepreensível. Estou desconfiado, Watson, de que a nossa sorte, nos próximos dias, está em lugares menos aprazíveis.

A manhã de segunda-feira surpreendeu-nos a caminho da famosa cidade universitária — esforço fácil da parte de Holmes, que não tinha coisa alguma que o prendesse, mas nada fácil para mim, que, naquela época, estava com uma clientela que não era de desprezar, sendo-me necessário modificar planos e andar depressa para perder o mínimo de tempo possível. Holmes não fez nenhuma referência ao caso até depois de guardarmos nossas malas na velha hospedaria de que havia falado.

— Watson, creio que podemos apanhar o professor pouco antes do almoço. Ele dá aula às onze horas, e aproveitaremos em sua casa o intervalo que se segue.

— Que pretexto temos para visitá-lo?

Holmes relanceou os olhos pelo seu bloco.

— Houve um período de agitação em 26 de agosto. Vamos supor que ela tenha a memória um tanto nublada em relação ao que faz em tais dias. Se insistirmos em que nos encontramos ali de acordo com uma combinação prévia, acho que dificilmente se arriscará a nos contradizer. Você tem o descaramento necessário para fazer isso?

— Vamos experimentar.

— Excelente, Watson! Vamos experimentar… será o lema de nossa firma. Não faltará um amável nativo para nos servir de guia.

Um deles, empoleirado no alto de um fiacre, transportou-nos velozmente ao longo de uma série de colégios tradicionais, e, finalmente, entrando num caminho de veículos ladeado de árvores, parou à porta de uma casa encantadora, cercada de relva e coberta de glicínias roxas. O professor Presbury sabia rodear-se não só de conforto, mas de luxo.

Exatamente no momento em que parávamos à sua porta, uma cabeça grisalha assomou à janela da frente, e vimos dois olhos penetrantes que, debaixo de sobrancelhas bastas, nos examinaram através de grandes óculos de tartaruga. Daí a pouco, penetrávamos no seu lar, e o misterioso cientista, cujos devaneios nos tinham trazido de Londres, estava diante de nós. Não havia indício de extravagância, quer nas suas maneiras quer na sua aparência, pois era um homem imponente, de feições largas, sisudo, alto, trajando sobrecasaca, com aquele porte cheio de dignidade que assenta bem num catedrático. O traço dominante eram os olhos, penetrantes, observadores e tão atilados que raiavam a astúcia.

Leu os nossos cartões.

— Queiram sentar-se, cavalheiros. Em que lhes posso ser útil?

Holmes sorriu delicadamente.

— Era essa a pergunta que eu ia lhe fazer, professor.

— A mim, cavalheiro?

— É possível que haja algum equívoco. Soube por uma pessoa que o professor Presbury, de Camford, precisava dos meus serviços.

— Oh, deveras? — Tive a impressão de ver brilhar uma chispa de malícia nos seus penetrantes olhos cinzentos.

— Então soube? Posso lhe perguntar o nome de seu informante?

— Sinto muito, professor, mas o assunto foi um tanto confidencial. Se houve equívoco da minha parte, não há nenhum mal nisso. Posso apenas apresentar as minhas desculpas.

— De maneira nenhuma. Desejo tirar a limpo este caso. É do meu interesse. O senhor não terá qualquer fragmento escrito, uma carta ou telegrama, que confirme sua afirmação?

— Não, não tenho.

— Presumo que não vá chegar ao ponto de dizer que eu o mandei chamar.

— Prefiro não responder a perguntas — disse Holmes.

— Compreendo, compreendo — tornou o professor, com aspereza. — Contudo, a pergunta que lhe faço tem resposta fácil, sem a sua ajuda.

Atravessou o aposento para alcançar a campainha. Nosso amigo de Londres, o sr. Bennett, atendeu a chamada.

— Entre, sr. Bennett. Estes dois cavalheiros vieram de Londres com a impressão de que foram chamados aqui. O senhor, que trata de toda a minha correspondência, tem algum bilhete dirigido a uma pessoa de nome Holmes?

— Não, senhor — respondeu Bennett, corando.

— Isso é bastante concludente — disse o professor, encarando enfurecido o meu companheiro. — Agora, cavalheiros — acrescentou, curvando-se para a frente com as duas mãos sobre a mesa —, parece-me que a sua posição é um tanto duvidosa.

Holmes encolheu os ombros.

— Só posso reiterar as minhas desculpas por ter vindo incomodá-lo desnecessariamente.

— É inútil, sr. Holmes — gritou o velho com voz estridente, ao mesmo tempo em que sua fisionomia não deixava dúvidas quanto aos seus propósitos. Interpôs-se, ao falar, entre nós e a porta, e gesticulava com ambas as mãos furiosamente. — O senhor não escapa assim tão facilmente. — Suas feições estavam alteradas; na sua raiva, mostrava-nos os dentes e dizia palavras sem nexo. Estou convencido de que, se não fosse a intervenção do sr. Bennett, só poderíamos ter saído dali usando a violência.

— Meu prezado mestre — gritou ele —, pense na sua posição! Considere o escândalo na universidade! O sr. Holmes é um homem bastante conhecido, e não é prudente que o senhor o trate com tanta descortesia.

De má vontade, o dono da casa saiu do caminho, franqueando-nos a porta. Demo-nos por felizes quando nos vimos fora da casa e no sossego do caminho arborizado. Holmes parecia comprazer-se grandemente com o episódio.

— Os nervos do nosso douto amigo estão um pouco fora do lugar — disse. — Talvez nossa invasão ao seu lar tenha sido um tanto intempestiva, e contudo lucramos com este contato pessoal, que eu desejava. Mas, caramba, Watson, não será ele que aí vem? O vilão ainda nos persegue.

Ouviam-se sons de passos de alguém que corria atrás de nós, mas com alívio verificamos que não era o professor, mas seu assistente, quem emergia na curva do caminho. Chegou ofegante.

— Sinto muito o que se passou, sr. Holmes. Desejava apresentar desculpas.

— Não se preocupe, meu caro sr. Bennett. São os ossos do ofício.

— Nunca o vi com um humor tão insuportável! O homem torna-se cada vez mais sinistro. Creio que o senhor, agora, compreende por que a filha dele e eu andamos tão alarmados. E, no entanto, ele está perfeitamente lúcido.

— Lúcido demais! — conveio Holmes. — Aqui é que os meus cálculos falharam. É evidente que ele pode confiar na sua memória mais do que eu supunha. Já que aqui estamos, sr. Bennett, seria possível vermos, antes de partir, a janela do quarto da srta. Presbury?

O sr. Bennett guiou-nos por entre arbustos, e daí a pouco víamos uma parte lateral da casa.

— É ali. A segunda à esquerda.

— Deveras? Parece quase inacessível! E, contudo, o senhor há de notar que existe uma trepadeira embaixo e um cano de água em cima que oferecem algum apoio.

— Eu não seria capaz de subir ali — disse o sr. Bennett.

— Acredito. Seria uma proeza para qualquer homem normal.

— Há outra coisa que eu queria lhe dizer, sr. Holmes. Tenho o endereço do homem de Londres a quem o professor escreve. Parece que ele lhe escreveu hoje de manhã. Consegui o nome no mata-borrão. É uma vileza para um secretário de confiança, mas que mais podia eu fazer?

Holmes olhou para o papel e colocou-o no bolso.

— Dorak… nome curioso. Eslavo, suponho. Bem, trata-se de um importante elo da cadeia. Voltamos para Londres hoje, depois do meio-dia, sr. Bennett. Não vejo vantagem na nossa permanência aqui. Não podemos prender o professor, porque ele não cometeu nenhum crime, e não podemos interná-lo num manicômio, porque não se pode provar que esteja louco. Por enquanto nada há a fazer.

— Então, em que ficamos?

— Tenha um pouco de paciência. As coisas em breve tomarão novo rumo. Ou muito me engano ou na próxima terça-feira se dará uma crise. Nesse dia, certamente estaremos em Camford. Entretanto, a situação geral é, sem dúvida, desagradável, e se a srta. Presbury puder prolongar sua ausência…

— Isso é fácil.

— Então, ela que fique onde está até que possamos lhe assegurar que o perigo já passou. Nesse meio tempo, ele que faça livremente o que lhe apetecer. Que ninguém o contrarie. Enquanto o homem estiver de bom humor, tudo irá bem.

— Lá está ele — disse Bennett num cochicho. Olhando por entre os ramos, vimos o vulto alto, ereto, surgir na porta de entrada e olhar em redor. Inclinava-se para a frente, mexendo as mãos diante de si e balançando a cabeça de um lado para o outro. Com um aceno de mão, o secretário esgueirou-se por entre as árvores, e vimo-lo daí a pouco alcançar o seu chefe, entrando ambos em casa em animada, ou melhor dizendo, agitada palestra.

— Quero crer que o velho, depois do que se passou, esteja tentando tirar suas conclusões — disse Holmes, ao tomarmos a direção do hotel. — Da rápida visita que lhe fizemos, tive a impressão de que possui um cérebro notavelmente lúcido e lógico. O caráter é violento, sem dúvida, mas afinal, sob o seu ponto de vista, ele tem certa razão para se mostrar assim, por ter verificado que já há detetives e médicos no seu encalço e por desconfiar que quem os chamou foram pessoas da sua própria casa. É bem provável que o amigo Bennett esteja passando um mau quarto de hora.

Holmes parou numa agência do correio e mandou um telegrama. A resposta apanhou-nos à tarde, e ele deu-a a mim, para que a lesse. “Visitei Commercial Road e vi Dorak. Bom tipo, idoso, da Boêmia. Dono de grande armazém. Mercer.”

— O signatário já é do seu tempo — disse Holmes. — É meu factótum quando se trata de negócios em geral. Era importante saber alguma coisa do homem com quem nosso professor se corresponde em tão grande segredo. Coincidentemente, ele é natural do país que o professor visitou.

— Ainda bem que alguma coisa coincide com outra — observei. — Presentemente, parece-me que estamos diante de uma série de incidentes inexplicáveis, que não têm nenhuma relação lógica uns com os outros. Por exemplo que relação pode existir entre um cão furioso e uma viagem à Boêmia, ou entre qualquer dessas duas circunstâncias e um homem que se arrasta pelo chão, à noite, num corredor? Mas o que mais espanto me causa, pela sua obscuridade, são as suas datas.

Holmes sorriu e esfregou as mãos. Estávamos na velha sala de visitas do antigo hotel, diante de uma garrafa do famoso vinho a que Holmes se referira.

— Bem, vamos falar primeiro nas datas — disse ele, com as pontas dos dedos juntas e com o jeito de quem está se dirigindo a alunos em aula. — O diário daquele excelente sr. Bennett mostra que houve sério transtorno em 2 de julho, e daí por diante parece que a coisa se reproduziu com intervalos de nove dias, com uma única exceção, se bem me lembro. Assim, a derradeira manifestação violenta do fenômeno verificou-se no dia 3 de setembro, que também se enquadra na série, tal como se deu em 26 de agosto, que foi a data precedente. Não se pode dizer que isso seja mera coincidência.

Tive de concordar.

— Formulemos, pois, para argumentar, a teoria que de nove em nove dias o professor toma alguma droga forte, que produz um efeito passageiro mas altamente prejudicial. A índole do homem, já naturalmente violenta, manifesta-se ainda mais com a beberagem. Ele soube da existência dessa droga enquanto estava em Praga, e quem agora lhe fornece isso é um sujeito natural da Boêmia, residente em Londres. Há aqui alguma falta de lógica, Watson?

— Mas, e o cão, e o rosto na janela, e o homem de rastos pelo corredor?

— Bem, bem, estamos apenas começando. Não posso dispor de nenhum novo dado antes da próxima terça-feira. Nesse meio tempo, cumpre-nos não perder contato com o amigo Bennett e ir aproveitando os encantos desta amena cidadezinha.

Pela manhã, o sr. Bennett apareceu para nos dar conta das últimas novidades. Conforme Holmes previra, a coisa não tinha sido muito fácil para ele. Sem propriamente responsabilizá-lo por nossa visita, o professor mostrara-se bastante áspero e rude em sua linguagem, e evidentemente sentia-se vítima de uma perseguição. Naquela manhã, entretanto, encontrava-se no seu estado normal, tendo feito de maneira brilhante sua preleção habitual a uma classe repleta.

— Sem falar naqueles seus esquisitos acessos — disse Bennett —, agora possui mais energia e mais vitalidade do que nunca, e jamais lhe vi tamanha lucidez. Mas já não é o mesmo, não é de forma nenhuma o homem que conhecíamos.

— Ao que me parece, o senhor nada terá a recear pelo menos durante uma semana — respondeu Holmes. — Sou um homem atarefado, e o dr. Watson tem seus clientes para atender. Fica combinado que nos encontraremos aqui, a esta mesma hora, na próxima terça-feira, e muito surpreso ficarei, sr. Bennett, se antes de nos irmos daqui novamente não pudermos explicar-lhe o motivo de suas apreensões; digo mais, se não formos capazes de pôr talvez um fim nessas apreensões. Entretanto, queira escrever-nos se houver qualquer coisa de importância.

Nos dias seguintes, não vi meu amigo, mas na segunda-feira, à tardinha, recebi um bilhete dele pedindo-me que nos encontrássemos na terça-feira, no trem. Pelo que me disse durante nossa viagem a Camford, tudo ia bem, mantendo-se inalterável a paz na casa do professor, sendo o seu comportamento perfeitamente normal. Foi essa também a informação que nos deu o próprio sr. Bennett quando nos procurou à tarde, em nosso aposento do Tabuleiro de Xadrez.

— Ele hoje teve notícias de seu correspondente em Londres. Chegou uma carta e também um pequeno pacote, ambos com a tal cruz abaixo do selo, para me advertir que não lhes tocasse. Nada mais houve.

— Isso deve ser o bastante — disse Holmes, um tanto preocupado. — Sr. Bennett, creio que esta noite havemos de chegar a uma conclusão. Se estão certas as minhas deduções, teremos oportunidade de levar o caso a uma definição qualquer. Para conseguirmos isso, é necessário observar de perto o professor. Eu proporia, portanto, que o senhor ficasse acordado e de vigília. Se o ouvir passar por sua porta, não o interrompa, mas acompanhe-o o mais discretamente que puder. O dr. Watson e eu não estaremos longe. A propósito, onde está a chave da pequena caixa de que o senhor falou?

— Ele a leva na corrente do relógio.

— Parece-me que nossas pesquisas devem se voltar nessa direção. Na pior das hipóteses, a fechadura não deve ser muito resistente. Há por acaso algum outro homem válido na casa?

— Há o cocheiro, MacPhail.

— Onde é que ele dorme?

— Em cima do estábulo.

— É possível que venhamos a precisar dele. Por ora, nada mais podemos fazer até ver o rumo que as coisas tomam. Até logo… mas espero que nos vejamos antes do amanhecer.

Era quase meia-noite quando nos instalamos no nosso posto de observação entre uns arbustos, bem em frente à porta de entrada do professor. A noite estava linda mas fria, e folgamos por ter roupa suficiente para nos agasalhar. Soprava uma brisa, e as nuvens galopavam através do céu, tapando de vez em quando o crescente. Seria uma vigília tristonha se não fosse a expectativa e o nervosismo que nos impeliam, e a afirmação de meu camarada de que provavelmente estávamos quase atingindo o fim da estranha seqüência de acontecimentos que vinham prendendo nossa atenção.

— Se o ciclo de nove dias se mantiver, hoje à noite teremos o professor no seu pior papel — disse Holmes. — O fato de esses estranhos sintomas terem começado depois de sua ida a Praga, de ele estar se correspondendo secretamente com um negociante da Boêmia estabelecido em Londres, que presumivelmente representa alguém de Praga, e de ter recebido hoje um pacote, tudo isso mostra um único rumo. O que ele toma e por que o faz são coisas que ainda se encontram fora do nosso alcance, mas que isso de algum modo provém de Praga, parece-me bastante claro. Ele toma a droga seguindo instruções definidas, que regulam esse sistema de nove dias, primeiro ponto que chamou a minha atenção. Mas os sintomas que o professor apresenta são notáveis. Você observou suas articulações?

Tive de confessar que não.

— Grossas e calosas, de uma forma inteiramente nova para mim. Olhe sempre primeiro para as mãos, Watson. Depois para os punhos da camisa, as joelheiras e o sapato. Articulações muito esquisitas só podem ser explicadas pelo modo de progressão observado por… — Holmes fez uma pausa e de repente bateu com a mão na testa. — Oh, Watson, Watson, que idiota tenho sido! Parece incrível, mas deve ser verdade. Tudo indica um rumo único. Como foi possível que me escapasse tal conexão de idéias? Aquelas articulações… como foi possível que elas não me sugerissem nada? E o cão! E a hera! É tempo de acabar com os meus devaneios. Atenção, Watson! Lá está ele! Vamos ter ensejo de vê-lo com nossos próprios olhos.

A porta da entrada tinha se aberto vagarosamente, e no fundo, iluminado por uma lâmpada, vimos a figura do professor Presbury. Vinha vestido com um roupão. De pé, de perfil, à entrada, apresentava-se rígido, mas curvado para a frente, mexendo os braços, como quando o víramos da última vez. No momento em que pôs os pés no caminho destinado aos carros, uma estranha mutação se apoderou dele. Agachou-se e foi se movendo sobre as mãos e os pés, saltitando a espaços como que transbordando de energia e vitalidade. Caminhou assim pela frente da casa e em seguida deu a volta pelo canto. Depois de desaparecer, Bennett esgueirou-se pela porta da entrada e foi seguindo-o mansamente.

— Venha, Watson, venha! — disse Holmes.

Introduzimo-nos o mais brandamente possível por entre os arbustos, até alcançarmos um lugar de onde podíamos ver o outro lado da casa, banhado pela claridade da lua. Via-se nitidamente o professor, de cócoras, no sopé da parede coberta de hera. Enquanto o observávamos, o homem começou de súbito a subir por ela com incrível agilidade. Pulava de ramo em ramo, sem errar o pé e com mão firme, trepando aparentemente por mera alegria de possuir tais poderes, sem qualquer objetivo definido em vista. Com o roupão esvoaçando de cada lado do corpo, parecia um descomunal morcego grudado à sua própria casa, formando uma grande mancha negra sobre a parede iluminada pela lua. Não tardou a cansar-se da brincadeira, e, deixando-se cair da hera, uma vez no solo, tomou a estranha postura anterior, de cócoras, e assim foi caminhando para o estábulo, sempre de rastos, como antes. O cão já se encontrava do lado de fora, ladrando furiosamente, e ficou mais furibundo que nunca quando avistou o dono. Forçava a corrente que o prendia e tremia de ânsia e de raiva. O professor, propositadamente, conservava-se de gatinhas quase ao. alcance do cão, e começou a provocá-lo de todas as maneiras possíveis. Enchia as mãos de seixos apanhados na estrada e atirava-os ao focinho do animal, cutucava-o com uma vara que colhera por ali, agitava as mãos apenas a alguns centímetros da boca escancarada do cão, esforçando-se de todos os modos para aumentar a fúria do animal, que já não podia se conter de raiva. Em todas as nossas aventuras, não me lembro de ter visto cena mais grotesca do que aquela figura impassível e mesmo assim imponente, numa postura de sapo, no chão, estimulando a ferocidade e a cólera do cão enfurecido (que se encabritava e dava pinotes diante dele) de todas as maneiras que lhe sugeria o engenho e a calculada crueldade.

E eis que num momento a coisa aconteceu! Não foi a corrente que se partiu, mas a coleira que escorregou, pois tinha sido feita para um terra-nova de pescoço grosso. Ouvimos o tinir do metal que caía, e no mesmo instante homem e cão se engalfinharam rolando juntos pelo chão, um rugindo de raiva, o outro soltando gritos estridentes de pavor. A vida do professor esteve por um triz. O feroz cão de guarda aferrara-o firmemente pela garganta, cravando-a com seus dentes agudos, e o homem já havia perdido os sentidos antes que os alcançássemos e pudéssemos apartá-los. Para nós, aquela seria uma missão perigosa, porém a voz e a presença de Bennett acalmaram instantaneamente o canzarrão. A algazarra fizera o cocheiro, sonolento e atónito, sair de seu quarto, nos altos do estábulo.

— Isso não me surpreende — disse ele, sacudindo a cabeça. — Vi-o, mais de uma vez, provocando o animal. Sabia que este, mais cedo ou mais tarde, haveria de agarrá-lo.

O cão voltou à corrente, e juntos carregamos o professor até seu quarto, onde Bennett, que também era formado em medicina, me ajudou a tratar-lhe da ferida. Por pouco os dentes agudos não atingiram a carótida, mas a hemorragia era, não obstante, grave. Dentro de meia hora, o perigo passara, e apliquei no enfermo uma injeção de morfina que o fez cair em profunda letargia. Somente então é que pudemos olhar uns para os outros e avaliar a situação.

— Penso que deve ser examinado por um bom cirurgião — opinei eu.

— Não, pelo amor de Deus! — exclamou Bennett. — Por enquanto, o escândalo está confinado às paredes desta casa. Só assim o episódio pode ficar em segredo. Mas se transpuser estas paredes, nada mais o deterá. É preciso ter em conta a posição do professor na universidade, sua fama européia, e os sentimentos da filha.

— Tem razão — disse Holmes. — Creio que é perfeitamente possível guardarmos reserva a respeito do caso e também evitar sua repetição, agora que temos ampla liberdade para fazê-lo. Sr. Bennett, a chave que está presa à corrente do relógio! MaçPhail ficará tomando conta do doente e nos avisará se houver qualquer novidade. Vamos ver o que há dentro da misteriosa caixa do professor.

Não havia muita coisa, mas era o suficiente: um frasco vazio, outro quase cheio, uma seringa hipodérmica, várias cartas escritas em claudicante ortografia de estrangeiro. Os dados dos envelopes mostravam que eram os mesmos que haviam chamado a atenção do secretário, e todas eram escritas da Commercial Road e traziam a assinatura “A. Dorak”. Eram simples faturas comerciais que anunciavam a remessa de um novo frasco ao professor Presbury, ou recibos que acusavam a chegada do dinheiro. Havia, contudo, outro envelope, em letra mais firme, com um selo austríaco e carimbo postal de Praga.

— Aqui está o nosso material! — disse Holmes, rasgando o invólucro.

“Ilustre colega: [dizia a carta]

Desde sua apreciada visita, tenho pensado muito em seu caso, e conquanto em suas circunstâncias existam certas razões especiais que indicam o tratamento, eu recomendaria, no entanto, cautela, uma vez que os resultados por mim obtidos mostram que o tratamento não exclui certo perigo.

É possível que o soro do antropóide seja melhor. Conforme lhe expliquei, tenho utilizado o Langur de focinho preto porque tive um espécime ao alcance. O Langur anda sem dúvida de rastos e sabe trepar, ao passo que o antropóide caminha ereto e está, em todos os sentidos, mais próximo de nós.

Peço-lhe que use a maior precaução possível para que não haja qualquer prematura revelação do processo. Possuo outro cliente na Inglaterra, e Dorak é meu agente para ambos.

Fico-lhe grato se, semanalmente, me enviar informações.

Seu, com elevado apreço,

H. Lowenstein.”

Lowenstein! O nome trouxe-me à memória um fragmento qualquer de jornal que falava de um obscuro cientista que andava empenhado em obter o segredo do rejuvenescimento e o elixir da vida. Lowenstein, de Praga! O descobridor do maravilhoso soro que dava robustez, repelido pêlos colegas por ter se recusado a revelar seu segredo. Em poucas palavras, disse aquilo de que me lembrava. Bennett tirou da estante um manual de zoologia.

— “Langur” — leu —, “o grande macaco de cara preta das vertentes do Himalaia, o maior símio trepador e o mais parecido com o homem.” Seguem-se vários pormenores. Bem, graças ao senhor, sr. Holmes, está claríssimo que descobrimos a origem do mal.

— A verdadeira origem — disse Holmes — está sem dúvida naquele tardio caso de amor que inspirou ao nosso impetuoso professor a idéia de que só poderia pôr em prática seu desejo se se transformasse num homem jovem. Quem tenta erguer-se acima de sua natureza arrisca-se a cair abaixo dela. O mais perfeito tipo de homem pode voltar à condição de animal se abandona o caminho reto do destino. — Sentando-se, ficou refletindo um pouco com o frasco na mão, olhando para o líquido claro ali contido. — Quando eu escrever a esse homem e lhe disser que o considero responsável criminalmente pêlos venenos que espalha, cessarão os atuais transtornos. Mas talvez voltem. Outros hão de poder encontrar um caminho mais desimpedido. Há nisso um perigo… um perigo real para a humanidade. Reflita, Watson, como os materialistas, os sensuais e os mundanos hão de querer todos prolongar suas vidas desprezíveis. Até mesmo os que vivem pelo espírito talvez não resistam à tentação, julgando-se chamados para coisas mais altas. Seria a sobrevivência do menos apto. Em que espécie de cloaca se transformaria este nosso pobre mundo?

De repente, o sonhador desapareceu, e Holmes, o homem de ação, deu um pulo da cadeira.

— Creio que não há mais nada a acrescentar, sr. Bennett. Agora, os vários incidentes vão se enquadrar facilmente no esquema geral. É claro que o cão percebeu a mudança muito mais rapidamente que o senhor. Isso se deve ao faro. Não era o professor, mas o macaco, que atormentava Roy. Trepar pelas paredes e árvores era um prazer para o pobre vivente, e só por mero acaso, segundo suponho, é que a brincadeira o levou até a janela da jovem. Watson, há um trem que sai cedo para a cidade, mas creio que ainda teremos tempo de beber uma xícara de chá no Tabuleiro de Xadrez antes de irmos para a estação.

[1] Abreviatura de Eastern Central, uma das zonas ou distritos postais de Londres. (N. do T.)

1927
Histórias de Sherlock Holmes

1. A pedra Mazarino § 2. A ponte de Thor
3. O homem que andava de rastos § 4. O vampiro de Sussex
5. Os três Garridebs § 6. O cliente ilustre
7. As três empenas § 8. O rosto lívido
9. A juba do leão § 10. Josiah Amberley
11. A inquilina do rosto coberto § 12. O velho solar de Shoscombe

Ilustrações: Howard K. Elcock, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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