O signo dos quatro – Capítulo 2

Arthur Conan Doyle

O signo dos quatro
Capítulo segundo

Título original: The Sign of Four
Publicado em Lippincott’s Magazine, Fev., 1890.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Sign of Four publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume I,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Capítulo segundo: Exposição do caso

A srta. Morstan entrou na sala com um passo firme e a maior compostura na aparência. Era uma jovem loira, pequena, elegante, de mãos enluvadas, e vestida com muito gosto e apuro. Havia, contudo, certa simplicidade no seu traje que denotava limitados recursos financeiros. Ele era de fazenda escura, mais cinza do que bege, sem guarnições nem enfeites. Ela usava também um pequeno turbante do mesmo tecido baço, alegrado apenas por uma pena branca de um dos lados. Seu rosto não tinha nem feições regulares nem beleza de traços, mas a expressão era doce e amável, e os grandes olhos azuis irradiavam simpatia e espiritualidade. Com toda a minha experiência em mulheres, que se estende por vários países e abrange três continentes, eu jamais vira uma face que tão eloqüentemente sugerisse uma natureza sensível e requintada. Não pude deixar de observar que, ao se sentar na cadeira indicada por Holmes, suas mãos e seus lábios tremiam, e que dava toda a aparência de grande perturbação íntima.

— Venho procurá-lo, sr. Holmes — disse —, porque uma vez o senhor auxiliou minha patroa, a sra. Cecil Forrester, a solucionar uma pequena complicação doméstica. Ela ficou muito impressionada com a sua gentileza e habilidade.

— Sra. Cecil Forrester repetiu ele, pensativamente. — Parece-me que tive a oportunidade de lhe prestar um ligeiro serviço. Mas, ao que me lembro, foi um caso muito simples.

— Ela pensa de maneira diferente. Seja como for, o senhor não poderá dizer o mesmo quanto ao meu caso. Não posso imaginar coisa mais estranha, mais inteiramente inexplicável, do que a situação em que me encontro.

Holmes esfregou as mãos, e os seus olhos brilharam. Inclinou-se para a frente da cadeira, com uma expressão de extraordinária concentração nas feições nítidas e aquilinas.

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House

— Exponha o seu caso — disse ele, num tom ríspido de profissional.

Senti-me em posição deveras embaraçosa.

— Queiram desculpar-me — disse eu, levantando-me.

Para minha surpresa, a jovem ergueu a mão enluvada a fim de me deter.

— Se o seu amigo — disse ela — tiver a bondade de ficar aqui, talvez possa me prestar um inestimável serviço.

Voltei para a minha cadeira.

— Em resumo — disse ela —, os fatos são estes: meu pai, que era oficial de um regimento indiano, mandou-me para a Inglaterra quando eu ainda era criança. Minha mãe morrera, e eu não tinha qualquer parente aqui. Fui, contudo, para um excelente colégio de Edimburgo, onde permaneci como interna até os dezessete anos. Em 1878, meu pai, que então era capitão do regimento, obteve uma licença de um ano e veio à Inglaterra. De Londres, telegrafou-me dizendo que tinha chegado muito bem e que eu fosse procurá-lo imediatamente no Langham Hotel, onde estava hospedado. Era, lembro-me bem, uma mensagem cheia de bondade e carinho. Ao chegar a Londres, dirigi-me para o Langham e fui informada de que o capitão Morstan estava realmente hospedado ali, mas havia saído na noite anterior e não tinha voltado. Esperei todo o dia sem ter notícias dele. A noite, a conselho do gerente do hotel, comuniquei-me com a polícia, e, na manhã seguinte, pusemos anúncios em todos os jornais. As nossas indagações não trouxeram qualquer resultado; e desde aquele dia até hoje nada mais se soube a respeito do meu desventurado pai. Ele voltava à pátria com o coração cheio de esperança, procurando encontrar paz e conforto, e em vez disso.

Levou a mão à garganta, e um soluço sufocante interrompeu-lhe a frase.

— A data? — pediu Holmes, abrindo o seu caderno de anotações.

— Ele desapareceu a 3 de dezembro de 1878… há quase dez anos.

— A bagagem?

— Ficou no hotel. Nada havia nela que contivesse qualquer indicação: roupas, alguns livros e um grande número de curiosidades das ilhas de Adaman. Ele fora um dos oficiais da guarnição do presídio que existe lá.

— Tinha muitos amigos aqui em Londres?

— Sabemos apenas de um… o major Sholto, que era do mesmo regimento, o 34.° de Infantaria de Bombaim. Q major tinha se aposentado havia pouco tempo e morava em Upper Norwood. Nós o procuramos, naturalmente, mas ele nem sequer sabia que o seu colega de regimento se encontrava na Inglaterra.

— Um caso singular — observou Holmes.

— Ainda não lhe expus a parte mais singular — disse a srta. Morstan. — Há cerca de seis anos. . . no dia 4 de maio de 1882, para sermos exatos. . . apareceu um anúncio no Times pedindo o endereço da srta. Morstan e dizendo que seria do seu interesse apresentar-se. Não dizia onde nem a quem. Nessa época eu começara a trabalhar para a família da sra. Cecil Forrester na qualidade de governanta. A conselho dela, publiquei o meu endereço na coluna dos pequenos anúncios. No mesmo dia, chegou pelo correio uma caixinha de papelão, dirigida a mim, na qual encontrei uma grande pérola de fino oriente. Não havia qualquer palavra escrita. Desde então, todos os anos, na mesma data, aparece uma caixa idêntica, com uma pérola idêntica, sem qualquer referência quanto ao remetente. Segundo o perito que as examinou, são pérolas de um tipo raro e têm grande valor, O senhor pode verificar como são belas.

Abriu uma caixinha chata, enquanto falava, e me mostrou seis pérolas das mais lindas que já vi.

— Sua declaração é muito interessante — disse Sherlock Holmes. Aconteceu-lhe mais alguma coisa?

— Sim, e justamente hoje. É por isso que vim aqui. Hoje de manhã recebi esta carta, que talvez o senhor queira ler.

— Muito obrigado — disse Holmes. — O envelope também, por favor. Carimbo: Londres S. W. Datado de 7 de julho. Hum! Marca de um polegar masculino no canto… provavelmente do carteiro. Papel da melhor qualidade. Envelope de seis pence o maço. Pessoa exigente em matéria de papelaria. Nenhum endereço. “Esteja na terceira coluna da esquerda diante do Lyceum Theatre, esta noite, às sete horas. Se desconfiar, venha com dois amigos. Sofreu um dano, e será feita justiça. Não traga a polícia. Se o fizer, tudo será em vão. Um amigo desconhecido.” Não há dúvida, isto é realmente um pequeno mistério! Que pretende fazer, srta. Morstan?

— É precisamente o que lhe desejo perguntar.

— Então iremos sem falta… a senhora, eu e… ah!, sim, o dr. Watson é o homem indicado. O seu correspondente diz dois amigos. O doutor e eu já temos trabalhado juntos.

— Mas será que ele quer ir? — perguntou a jovem, com certo tom de súplica na voz e na expressão.

— Será uma honra e uma satisfação — disse eu com veemência —, se puder prestar-lhe um serviço.

— Ambos são muito bondosos — volveu ela. — Tenho levado uma vida retirada, e não tenho amigos a quem apelar. Se eu voltar aqui às seis, está bem?

— Não deve vir mais tarde — disse Holmes. — Mas ainda há um outro ponto. Essa letra é a mesma do endereço que vinha nas caixinhas com as pérolas?

— Tenho-as aqui — respondeu ela, apresentando meia dúzia de pedaços de papel.

— A senhora é sem dúvida uma cliente modelo. Tem a intuição devida. Vejamos, então.

Holmes espalhou os papéis sobre a mesa e começou a olhar rapidamente de um para outro.

— São letras disfarçadas, exceto a da carta — disse ele pouco depois. — Mas não há dúvida quanto à autoria. Veja como o irrepreensível i é interrompido, e o floreio final do s. Foram indubitavelmente escritos pela mesma pessoa. Não quero insinuar falsas esperanças, srta. Morstan, mas não há nenhuma semelhança entre esta letra e a de seu pai?

— Nada poderia ser mais diferente.

— Esperava que me dissesse isso. Muito bem. Vamos esperá-la às seis. Permita-me, por favor, que fique com estes papéis. Talvez eu tenha tempo de examiná-los mais a fundo. São apenas três e meia. Au revoir, então.

— Au revoir — respondeu a nossa visitante; e, com um olhar vivo e afável para cada um de nós, repôs no seio a caixinha com as pérolas, retirando-se a passos rápidos.

Em pé junto à janela, vi-a descer desembaraçadamente a rua, até que o turbante cinzento e a sua pena branca se tornaram apenas um pontinho claro na multidão incolor.

— Que mulher atraente! — exclamei, voltando-me para o meu companheiro.

Ele reacendeu o cachimbo e recostou-se novamente na sua poltrona, com as pálpebras semicerradas.

— É? — disse ele, languidamente. — Não notei.

— Você é realmente um autômato… uma máquina de calcular — bradei-lhe. —— As vezes, tem qualquer coisa de positivamente inumano.

Holmes sorriu ligeiramente.

— É de capital importância — disse ele — não permitir que o nosso julgamento seja distorcido por qualidades pessoais. Para mim, um cliente é uma simples unidade, um dado num problema. As qualidades emotivas não se coadunam com um raciocínio claro. Afirmo-lhe que a mulher mais encantadora que já vi foi enforcada por ter envenenado três criancinhas para ficar com o dinheiro do seguro, e que o homem mais repulsivo que conheço é um filantropo que já gastou quase um quarto de milhão com os pobres de Londres.

— Neste caso, entretanto.

— Nunca faço exceções. Uma exceção anula a regra. Já teve ocasião de estudar grafologia? Que me diz da letra desse sujeito?

— E legível e regular — respondi. — Talvez um homem de hábitos comerciais e com certa força de caráter.

Holmes abanou a cabeça.

— Veja as letras ascendentes — disse ele. — Mal sobressaem das outras. Este d poderia ser um á, e este 1, um e. Os homens de caráter diferenciam sempre as letras compridas, por ilegível que seja a sua escrita. Há uma certa indecisão nos seus kk e amor-próprio nas maiúsculas. Agora vou sair. Preciso de algumas referências. Permita-me que lhe recomende este livro… um dos mais notáveis que já se escreveram. É o Martírio do homem, de Winwood Reade. Voltarei dentro de uma hora.

Sentei-me junto da janela com o livro na mão, mas os meus pensamentos estavam longe das ousadas especulações do escritor. Revia mentalmente a nossa visitante… os seus sorrisos, o timbre sonoro de sua voz, o estranho mistério que pairava sobre a sua vida. Se ela contava dezessete anos quando o pai desaparecera, devia ter agora vinte e sete… uma doce idade, na qual a juventude já perdeu o embaraço que lhe é próprio e se tornou um pouco reservada pela experiência. Assim, continuei a meditar, até me virem à cabeça pensamentos tão perigosos que corri para a minha escrivaninha e mergulhei furiosamente no último tratado de patologia. Quem era eu, um médico militar, com uma perna fraca e situação financeira ainda mais débil, para me atrever a pensar em tais coisas? Ela era uma unidade, um dado… nada mais. Se o meu futuro era negro, certamente era melhor enfrentá-lo como homem do que procurar abrilhantá-lo com as vespas da imaginação.

Capítulo primeiro: A ciência da dedução § Capítulo segundo: Exposição do caso
Capítulo terceiro: À procura de uma solução § Capítulo quarto: A história do homem calvo
Capítulo quinto: A tragédia de Pondicherry Lodge § Capítulo sexto: Sherlock Holmes faz uma demonstração
Capítulo sétimo: O episódio do barril § Capítulo oitavo: Os irregulares da Baker Street
Capítulo nono: Uma falha na seqüência § Capítulo décimo: O fim do ilhéu
Capítulo décimo primeiro: O grande segredo de Agra § Capítulo décimo segundo: A estranha história de Jonathan Small

Ilustrações: Richard Gutschmidt, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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