Sherlock Holmes em carne e osso

Por Irving Wallace
Condensado de Seleções do Reader’s Digest, Agosto, 1948

Para gerações de leais admiradores,
o maior detective da ficção foi um personagem real

Ilustração da matéria original, 1948

Ilustração da matéria original, 1948

Uma noite, há cerca de cinqüenta anos, depois de uma caçada na Escócia, os convivas estavam sentados à mesa de jantar, conversando sobre crimes célebres cujos autores nunca foram descobertos. Um dos convivas, o dr. Joseph Bell, mantinha os interlocutores admirados, graças às suas mirabolantes deduções. Esse dr. Bell era um eminente cirurgião cujas lições recheadas de engenhosos raciocínios, haviam exercido considerável influência sobre cinco gerações consecutivas de estudantes da Universidade de Edimburgo. Entre esses, alguns se tornaram célebres, como Conan Doyle, Robert Louis Stevenson e James M. Barrie.

“A maioria das pessoas vêem, mas não sabem observar”, dizia o dr. Bell aos seus convivas. “Olhando de relance um indivíduo, a gente pode identificar-lhe o país de origem por suas feições; pelas mãos, a profissão e os meios de vida; e o resto da sua história é revelado pelo modo de andar, os maneirismos, os berloques do relógio, e até os fiapos que aderem às suas roupas.

Um dia entrou um doente na sala onde eu estava lecionando uma turma de estudantes de medicina. – Senhores, disse eu, este homem foi soldado num regimento escocês, e provavelmente músico da banda.

Chamei a atenção dos rapazes para o jeito arrogante com que o doente andava, fazendo lembrar os tocadores de gaita de foles; sendo ele de baixa estatura, deduzi que, se era mesmo soldado, fazia parte da banda. Mas o nosso homem afirmava que era sapateiro, e nunca tinha sido soldado.

Pedi que ele tirasse a camisa, e no seu peito nu vi um pequeno D azul, marcado a ferro na pele: era assim que as autoridades costumavam marcar os desertores durante a Guerra da Criméia. O sujeito acabou confessando que tinha sido músico da um regimento escocês durante a guerra. A dedução foi realmente elementar…”.

Um dos presentes observou: “O dr. Bell quase que podia ser Sherlock Holmes”. Ao que o médico retorquiu vivamente: “Meu caro senhor, eu sou de fato Sherlock Holmes”.

O dr. Bell foi, na verdade – e Arthur Conan Doyle o revelou em sua autobiografia – o inspirador do imortal personagem da ficção policial.

As regras do raciocínio dedutivo e da análise que tornaram Sherlock Holmes célebre, refletiam simplesmente a técnica usada na vida real pelo dr. Bell. Dizia este um dia, a um repórter que o entrevistou: “Sempre me esforcei por incutir nos estudantes a noção da importância das pequenas diferenças, da inestimável significação das insignificâncias. Por exemplo, quase todas as ocupações deixam impresso, nas mãos de quem as pratica, um verdadeiro tratado de identificação profissional. As cicatrizes do mineiro diferem das do homem que trabalha na pedreira. As calosidades da mão do carpinteiro não são as mesmas que vemos na mão do pedreiro. O soldado e o marinheiro distinguem-se um do outro pela maneira de andar. O médico observador pode muitas vezes dizer com acerto qual é a região do corpo de que o cliente se vai queixar, especialmente quando se trata de uma mulher”.

O dr. Bell estava convencido de que o desenvolvimento das faculdades de observação era de imperiosa necessidade para médicos e policiais; mas, sustentava ele, qualquer homem exercitando essas faculdades, pode transfigurar a monotonia da sua existência em uma empolgante aventura. “Quando a família viajava de trem”, recorda a sra. Cecil Stisted, sua irmã, “Joseph nos dizia de onde provinham os outros passageiros, para onde iam, e descrevia até os hábitos e ocupações dos mesmos. Tudo isso sem ter conversado com eles. E quando estes confirmavam o acerto de suas observações, nós ficávamos convencidos de que ele era mágico”.

Uma tarde, estava o dr. Bell no seu gabinete na Enfermaria Real, quando alguém lhe bateu à porta: – Entre! disse ele.

Entrou um homem. O médico olhou-o atentamente e perguntou:

– Por que é que o senhor está preocupado?

– Quem é que lhe disse que eu estou preocupado?

– As pessoas que não estão preocupadas batem duas, ou talvez três vezes. O sr. deu quatro pancadas.

O homem confessou que estava realmente preocupado…

Conan Doyle disse um dia a um jornalista que “o dr. Bell, sentado no seu gabinete, recebia os doentes e fazia o respectivo diagnóstico assim que eles entravam, antes mesmo de terem aberto a boca. Descrevia-lhes os sintomas todos, e chegava a dar pormenores sobre o passado deles. E era raro enganar-se”.

Procurava diariamente demonstrar aos estudantes que a observação não é obra de magia, mas uma verdadeira ciência. Trabalhando na Enfermaria Real, o dr. Bell, ao ver entrar um doente, comentava: “Sapateiro, não é?”. Mais tarde explicava aos alunos: “O lado interior das calças do homem, na altura dos joelhos, estava todo gasto, particularidade essa que só se encontra nos sapateiros. É aí que eles assentam a pedra”.

No tempo em que Conan Doyle, ainda moço, era aluno e assistente do dr. Bell, um enfermo entrou um belo dia no gabinete do médico, que lhe disparou esta pergunta:

– Que tal foi o passeio desta manhã no campo de golfe, quando o senhor veio do lado sul da cidade?

O paciente replicou com uma expressão de espanto:

– Muito agradável, sim senhor! Mas o doutor me viu?

O médico não o tinha visto, mas explicou:

– Num dia chuvoso como hoje, o barro vermelho do campo de golfe adere ao calçado. Não existe outro barro vermelho em toda a redondeza.

Conan Doyle conta-nos em sua autobiografia outro exemplo da argúcia do dr. Bell. Depois de examinar em silêncio um doente de fora, disse-lhe o médico:

– Bom, você fez serviço militar num regimento escocês e deu baixa a pouco tempo.

– É verdade.

– E foi sargento na guarnição de Barbados?

– Isso mesmo, doutor.

Saindo o doente, o dr. Bell voltou-se para os estudantes: “Como os senhores viram, ele era um homem bem educado, mas entrou sem tirar o chapéu. É o que se faz no exército, mas se ele tivesse dado baixa há muito tempo, já teria voltado a aprender os costumes da vida civil. Tinha um modo autoritário, e inconfundivelmente escocês. Quanto a Barbados, sofre de elefantíase, doença que sugere a permanência nas Antilhas”.

Esse incidente causou tal impressão em Conan Doyle, que muitos anos depois ele ainda havia de reproduzí-lo quase que textualmente em seu conto The Greek Interpreter, cujo herói é Sherlock Holmes. Doyle colou grau na Universidade de Edimburgo em 1881. Especializado em doenças dos olhos, pôs a tabuleta na porta e ficou à espera dos doentes. Seis anos depois ainda estava à espera… Na dura necessidade de ganhar algum dinheiro, começou a escrever. Estreou sem êxito e, sob influência de Gaboriau e de Edgar Poe, resolveu tentar o gênero policial. Mas para isso queria um novo tipo de detetive.

“Lembrei-me então do meu velho professor, o dr. Bell”, recorda Doyle na já referida autobiografia. “Se ele tivesse sido detetive, teria com certeza reduzido esse ofício fascinante, mas ao mesmo tempo ainda desorganizado, a alguma coisa de semelhante a uma ciência exata. É muito fácil dizer que um detetive é sagaz, mas o leitor quer exemplos dessa perspicácia – exemplos como os que Bell nos dava a toda hora. A idéia me pareceu interessante”.

A primeira vez que Sherlock Holmes apareceu, no Beeton’s Christmas Annual de 1887, não foi muito bem recebido. Apesar disso, um editor americano encomendou-lhe, dois anos depois, mais alguns contos de Sherlock Holmes, e o detetive entrou no caminho da imortalidade literária.

Em ambas as margens do Atlântico os fãs discutiam acaloradamente cada nova proeza do sagaz detetive, que a hábil pena de Doyle sabia tornar tão plausível. Em Adventure of the Norwood Builder, um rapaz meio alucinado entra de rompante na casa de Sherlock Holmes, e, ao anunciar seu nome, – John McFarlene – ouviu do detetive esta resposta, dita com sua característica indolência: “O sr. diz o seu nome como se eu tivesse obrigação de reconhecê-lo! Mas asseguro-lhe que, além do fato evidente de que o sr. é solteiro, solicitador, membro da Maçonaria e asmático, nada sei a seu respeito!”.

Entretanto, o próprio dr. Bell mostrou que não era infalível, e que tinha além disso um acentuado bom humor.

Quando os seus visitantes lhe pediam que lhes narrasse histórias das suas proezas no mundo da dedução, contava-lhes a visita que um dia fizera a um doente acamado.

De pé ao lado da cama, rodeado dos estudantes, Bell perguntou ao enfermo:

– Diga-me uma coisa: o sr. não é músico da banda militar?

– Sou, sim senhor, confirmou o paciente.

Então o dr. Bell se voltou muito ufano para os seus estudantes:

– Como vêem, a coisa é muito simples. Este homem sofre de paralisia dos músculos das bochechas, resultado de tanto soprar nos instrumentos. Basta a gente perguntar, para confirmar essa conclusão. E, voltando-se de novo para o doente:

– Ora diga, meu velho, que instrumento tocava na banda?

O paciente se ergueu um pouco, apoiado nos cotovelos, e respondeu:

– Era o tambor.

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